Acabou a festa

Por: José Borges da Silva

Encerrada a Copa do Mundo de Futebol e para quem acompanhou o evento de perto, fica a sensação confortável de retomada do cotidiano, após uma longa e emocionante jornada num mundo de sonhos. Para os que participaram da organização, possivelmente aquele sentimento de quem começa a colocar as coisas no lugar, após uma grande festa dada em casa. O fato de o nosso time não haver ganhado o título já não causa sofrimento ou vergonha. Afinal, apesar de pensarmos sempre na vitória, ”perder faz parte do jogo, como a morte faz parte da vida”, como lembrou o cantor Gilberto Gil na saída do estádio, após a eliminação do Brasil do torneio pela Alemanha, com aquele placar desconcertante de 7 x 1. Mesmo assim, resta a sensação de congraçamento das nações, apesar da tristeza dos eliminados do torneio. A confortar os que ficaram pelo caminho na luta pela taça, a realidade evidencia que todos fizeram parte da festa. Portanto, todos foram participantes e não perdedores. E se não havia espaço para mais de um campeão, não resta também motivo para os exageros cometidos por alguns torcedores e por parte das mídias apaixonadas. Afinal, tratou-se de uma festa, de um torneio desportivo, e não de uma guerra. Portanto, perder no esporte não desonra. A Copa do Mundo de Futebol deve ser vista como um congraçamento das nações, como uma festa mundial. E daí, ser o anfitrião é honraria maior e não implica o dever de ganhar o título. Por isso, não há razão para intervenções do governo no futebol, para impedir que atletas deixem o país, como insinuou a Presidente, ou para controlar o esporte, como quer o Ministro da Pasta respectiva. Ambos se portaram mal ao encarnarem comportamento de torcedores fanáticos. Embora aquelas falas espontâneas não deixem de mostrar a velha sanha do governo de controlar a sociedade, a mídia, a produção e, quem sabe, a liberdade das pessoas, misturada, naturalmente, com uma pitada de arrogância, ao insinuar que, se entrar no jogo a torcida não terá mais decepção! Mas, enfim, a festa acabou e do governo queremos é que arrume a casa e não que venha perturbar o último reduto de alegria do povo. Até porque, a possibilidade de ganhar ou de perder é a única graça de qualquer esporte de competição. Imaginem se o Brasil tivesse ganhado todas as Copas do Mundo disputadas até hoje. Alguém iria se interessar por elas? Vivas à seleção da Alemanha, campeã e que, além de levar o título ganhou a torcida do povo brasileiro, com simpatia, cordialidade e respeito!
 
 
José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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