Velho não é o outro...

Por: Maria Luiza Salomão

Tropecei em um livrinho de Mirian Goldenberg, antropóloga carioca, “ A bela velhice”, 2014, Ed. Record, 123 páginas. Gostei da sua proposta de “quebrar o silêncio” sobre o envelhecimento, expressão de Simone de Beauvoir que, em 1970, lançou o livro “A Velhice”. Outra mente, Mirian traz pesquisas antropológicas contemporâneas para uma reflexão brasileira e menos amarga, enfatizando a beleza que também existe em envelhecer. Velhos não são os outros: nem são os olhares dos outros que nos tornam velhos. 
 
Sempre tive admiração pelos cabelos brancos, as rugas, a dignidade de afazeres, a vitalidade administrada,a energia calma dos meus calorosos velhos, que não desistiam da vida, não se envergonhavam das rugas, dos achaques, que aceitavam suas limitações, e procuravam maneiras de fazer a vida render a seu favor, sempre imperfeita, mas ativa mente.
 
A antropóloga levanta perguntas interessantes em sua pesquisa: 
 
1. O que significa envelhecer? Tem medo de envelhecer? Qual o seu maior medo?
2. Deixaria de fazer ou usar algo porque envelheceu?
3. Toma algum cuidado para envelhecer bem? Homens e mulheres envelhecem de forma diferente?
4. Dê um exemplo de uma pessoa pública que você acha que envelheceu bem/mal. 
 
Envelhecer me fez delicadamente cuidadosa com o corpo, pessoas, relacionamentos; com a memória - pessoal e coletiva. Medo maior é o de ficar sem projetos que me deem significados para viver, tesão. Eu me quero (cri) ativa: exercito o corpo diariamente e a alimentação é prazerosa e moderada: beber um bom vinho, comer ritualística mente. Sonhos simples e economicamente acessíveis: viajar, ler muito, em grupos heterogêneos (“cada homem é uma raça”,segundo Mia Couto). Louise Bourgeois; Fernanda Montenegro; Fred Astaire, que dançou até bem velhinho; Gilberto Gil, que me leva a um pensar musical; esses são modelos de quem tem prazer em expandir horizontes, e não driblam o trabalho e o esforço para esbanjar energia, generosamente. 
 
Nas pesquisas, as mulheres envelhecem melhor do que os homens (depois dos 60 anos); homens se deram mais liberdade a vida toda, e engordam, bebem demasiadamente, não vão aos médicos, etc.. As mulheres escravizadas aos ditames da beleza e da família se libertam. Muitas se sustentam emocionalmente em grupos de amigas. Os homens se arrependem, quando anteriormente ocupados exclusivamente com o trabalho: queriam ter se dedicado mais aos amigos e à família. Que desencontro cruel, no envelhecimento, entre os dois gêneros (não?). 
 
Melhor pensar na velhice enquanto novo e viver jovialmente quando velho. Ser velho não vem do olhar do outro, depende do olhar para si mesmo. 
 
Juventude é alma a aprender continuamente “como um dia come outro”. Ter um projeto significativo ao pular da cama, e dormir crescente ou minguante, luamente cheia ou nova, provisória ou definitiva mente.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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