O fugitivo

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Naquela noite de inverno, quando o vi pela primeira vez, estava em uma sala de claridade opaca, portas e janelas cerradas, rodeado de parentes, sentado em uma cadeira, segurando a bengala na mão direita. Parecia bem mais velho do que os seus setenta anos, pálido, magro e trêmulo. Impressionei-me com o pavor que vi estampado em seu rosto. Ouvira sua história, mas não imaginara que pudesse ler em sua face os sentimentos de medo e culpa que transpareciam. Seu olhar era sobressaltado. Tremiam-lhe os lábios. Uma inquietação percorria seus membros, seus pés atritavam o chão em movimentos espontâneos. Apesar de sempre ter alguém de sua família por perto, vivia só, com seu remorso. Passara a vida toda fugindo, de seu vingador e de si mesmo. Quando moço, ele e o irmão, filhos de poderoso coronel, dono de uma imensidão de terras cultiváveis, foram ao arraial, onde se realizava a festa anual da padroeira. Montados em um só cavalo, cobertos com uma grande capa escura, passavam galopando, entre as pessoas, empinando o animal e dando tiros para o alto. Eram conhecidos como arruaceiros e bebedores contumazes. Mesmo assim, o organizador da reunião, homem de prestígio, criador de muares e por isso conhecido em toda região, aproximou-se dos dois, munido de um cabo de guatambu e exigiu que se afastassem dali. Como resposta, numa ação inconsequente, num ímpeto insensato de juventude irresponsável, recebeu um tiro no peito que o derrubou, morto, no chão. Em meio à comoção, um de seus netos jurou vingança atroz, prometendo perseguir, pela vida toda, o causador de tão pungente sofrimento. Os jovens abrigaram-se na casa do pai que providenciou a fuga do filho que havia atirado, em um caminhão de mudança, embaixo de um colchão. Ele foi para longe, para o interior de Minas Gerais, mudando-se de cidade em cidade.
 
Depois de seu crime julgado e prescrito, voltou para mais perto, sempre se escondendo e desassossegado. Mesmo sabendo que o rapaz desistira da perseguição, nunca mais teve paz, nem pode voltar para sua fazenda. Refém de sua fragilidade juvenil tornou-se um homem torturado. Viveu açoitado pelo medo, carregando uma pesada culpa até a morte, quando ela foi enterrada , junto de si. 
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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