Contagem regressiva: extrato

Por: Vanessa Maranha

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“O botão da TV vai de um lado para outro, quase arrancado, um pino, metade nos dedos de um, metade nos dedos da outra, como num cabo de guerra, sem destino certo. É forte, a Leda. Puxo o cabelo da menina e o escândalo mobiliza a casa. Um tropel vem armado da cozinha e o jeito é sair correndo.
 
Volto ao jardim, o meu reinado, e arranco morangos granados, mas verdes.
 
“O Nicolau não gostará”, penso, a fruta muito azeda me travando a mandíbula e fazendo da minha boca um asterisco.
 
Nicolau, o anjo que vez ou outra descia para me fazer companhia no jardim imenso. Devia ter uns quinhentos anos, asas caídas de velhice, um voo engazopado, pele translúcida, olhos cor de violeta, um jeito de inglês. Devia ser inglês o Nicolau.
 
A sua língua de anjo em voz de harpa eu nunca entendi, embora o compreendesse perfeitamente. Sabia que ele reprovava judiações aos bichos e a panha de fruto imaturo. Mas, Nicolau não era de broncas. Instruía-me na aragem invisível das herbáceas: escutar-lhes a seiva correndo nos caules; articular comunicação com as flores; atrair borboletas. Para esse último intento, o anjo me ensinava um silvo muito fino.
 
Um dia entrei em treinos de silvo e o meu corpo ficou inteiramente coberto de borboletas, centenas, dos pés ao topo da cabeça e o susto foi grande. Enfiaram-me debaixo do chuveiro para espantar as catracas coloridas que se debatiam em voos circulares pela casa até encontrarem portas e janelas que as libertassem. O mesmo com as abelhas.
 
Cobriam-me todo, como se a uma enorme colmeia movente, sem uma picada sequer. Mas, ao redor, o resultado era o pânico. Verdade é que eu gostava da movimentação que causava naquela família, caminhando lentamente pelo jardim, sobrepesado pela ruiveza esvoaçante das abelhas, como enorme sombra. 
 
Pensava que a mãe não deveria querer outra coisa do mundo que não a mim, o seu filho lindo. Mas, fato mesmo era que os olhos dela estavam voltados para muitas outras coisas também. Eu a mirava com deslumbramento, tão alta e bonita, os seus cabelos longos e marrons, sua delicadeza com as mãos, sobretudo, sabia que quando as coisas chegavam a um ponto difícil, era ela a dona da solução, intervindo como se não interviesse, seu toque oculto, às bravuras-bravatas-bravezas do pai.
 
A minha mãe era quem amaciava e dava doçura a tudo. Alguém que tornava o mundo mais fácil. A avó Laura, mãe do Rei, não, não tinha maciez, mas umas francesices, falsa maciez, pegava tudo com as pontas dos dedos, a cara trincada na expressão de nojo da vida toda. Ninguém chegasse muito próximo dela, não gostava, jamais retribuía.
 
Perto da cozinha ela nem passava. Eu pensava que fosse uma bruxa desgarrada de algum conto terrível, embora o Nicolau tivesse me dito, do jeito dele, que não: era apenas uma mulher triste e, por isso, brava. 
 
Vó Laura não soube que fui eu quem meteu uma lagartixa na sua mala, numa das vezes em que partiu para longe. Só no outro continente, num quarto de hotel, tomou ciência da Lola, mortinha da silva entre os seus lenços de seda. Mamãe contou, tentando seriedade, que ela quase botara o hotel abaixo à visão do bicho, aliás, o mais feroz do meu criadouro secreto de lagartixas, lá no barracão dos fundos.
 
Eu dividia então, naquele tempo, o mundo entre os macios e os ásperos. Vó Laura, áspera feito lixa. Mamãe, a macieza em pessoa, assim como a tia Luciana, o tio Joca, o Nicolau, a tia Palmira. Teodolinda, áspera. Meu pai, áspero. Vó Beatriz, uma seda. Leda, nem áspera, nem macia. Estava em outra classificação: chata.”
 
 
FICCIONISMO
 
Vanessa Maranha começa a escrever ainda menina. Depois seu texto evolui como exercício para retratar o mundo que seus olhos adolescentes descortinam já com outras tintas que não as infantis. Com a escrita, os anos de formação, muitos cursos, inclusive de línguas, e viagem à Europa, onde mora por algum tempo.
 
 As coisas da vida, reunião de contos, lançado em 1995, mostra amadurecimento surpreendente em livro de estreia, quer no nível da efabulação, quer no do estilo. Alguns anos depois, exercendo funções de jornalista neste Comércio, publica Cadernos Vermelhos, fragmentos onde a tensão entre discurso e narrativa revela autora que avulta, imprimindo sua marca com cores fortes no espírito do leitor. Em Oitocentos e sete dias, lançado em 2012, o resultado da transformação de forma e fundo evidencia renovação e adensamento.
 
Enquanto suas histórias ganham livros, ela publica textos neste caderno, participa de encontros, de debates e da Flip, como convidada. Também inscreve parte de sua produção em concursos nacionais e internacionais que lhe rendem prêmios importantes. Em 2007 é convidada pelo escritor Luiz Ruffato para integrar a antologia +30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Em 2013 faz jus a dois prêmios de repercussão nacional: O UFES, da Universidade do Espírito Santo, e o Barueri de Literatura.
 
Escrevendo sempre e muito, nos espaços que consegue abrir na agenda robusta de psicóloga que atende diariamente em sua já muito conhecida clínica, a ficcionista acumula material suficiente para vários livros. O quarto leva ao leitor algo mais sofisticado em termos de estrutura de história. Vanessa Maranha adentra o gênero romance com o sugestivo título contagem regressiva, cujo extrato publicamos nesta página. A obra será lançada na sexta-feira, dia 25, às 19h30, na Livraria Pé da Letra. O romance foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2014, sendo editado pelo Selo Off Flip, de Paraty. Usando voz masculina na narração, e contando a história de um homem que busca um antídoto contra a morte, e no final da vida se interna voluntariamente numa clínica psiquiátrica, Vanessa Maranha, seguindo o que vem fazendo, vai “iluminar com sua narrativa o belo e sangrento labirinto da experiência humana”. Foi com essa frase textual que Nadine Gordimer, Nobel de Literatura que nos deixou há dias, definiu o escritor valoroso. (SM) 
 
 
Livro
 
Título: contagem regressiva
Autora: Vanessa Maranha
Gênero: romance
Projeto gráfico: Mariana Poli
Grafismos da capa: Olga Yamashiro
Número de páginas: 190
Editora: Selo Off Flip/ Paraty
Lançamento: 25 de julho, sexta-feira,  19h30
Local: Livraria Pé da Letra, Rua Frederico Ozanan, 746
 
 
Vanessa Maranha, psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida, Cadernos Vermelhos, Oitocentos e sete dias e contagem regressiva

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