Pacífico e a Sereia

Por: Janaina Leão

Essa é a história de amor entre seres encantados. Um da terra e outro da água.
 
Marujo chamava Pacífico, nome que ele escolheu, depois de escolher também a vida solitária dos que cruzam mares na companhia das estrelas do dia e da noite. E não é que combinava?! Passava as horas vagas fazendo dobraduras de papel, de tudo que tinha saudade: flores, pássaros, árvores, mas o que amava mesmo era dobrar rosas, dava a sensação que eram representações do grande amor que não conhecera ainda e que buscava em todos os portos nos quais descarregava seus sonhos/containers.
 
Sereia recebeu nome de anjo Angelina. Seu pai a amava muito, mas sabia que um dia teriam que separar-se e sua menina d’água deveria suportar a missão dos elementais, que era de dar vida para a existência dos navegantes. Cantava solitária no mar imenso dos homens da terra, e guiando nos momentos de solidão, aliviava-os com sua voz doce, de quem olhava as estrelas e compunha uma melodia por dia. Mas Angelina sentia-se só, e cantava por saudades também, do pai, dos irmãos que haviam seguido destinos diferentes e da mãe que estrela-do-mar se partiu num casco de navio e a deixou ali, na companhia das estrelas do céu que o pai sabiamente entrelaçou na menina prevendo este momento.
 
Sereia tinha o corpo bronzeado, que o sol enamorado dourava durante o dia. No lugar das pernas que seriam enormes, caso as tivesse, uma enorme cauda de peixe com todas as cores do arco-íris. Angelina era engraçada e gostava além de cantar, contar histórias para os peixinhos, e ela se fazia vesga, e conseguia fechar e abrir as narinas, e botava a cauda atrás da cabeça e dava saltos que causavam inveja aos golfinhos . Também se metia a dar conselhos aos tubarões que muito bravos se acalmavam quando ela lhes falava. Era a mulher mais linda daquele céu molhado, mas sentia falta de um companheiro. Angelina era espécie em extinção, já tinha namorado alguns peixes, mas dizia: 
 
— Ai, parece que tenho que fazer “sala”, não me sinto confortável com esses escamosos. E se meu marujo virasse sereio? ...
 
Dizia isso, pois uma vez conheceu um desses seres da terra. O rapaz caiu da embarcação ao tentar dependurar um origami de rosa na proa do navio. Angelina que estava por perto o salvou em segredo, mas quis lhe roubar a rosa, de certo lhe faria companhia, já que o marujo não suportaria viver debaixo d’água. E era bonito! Chamou-o de soldadinho, pois se lembrou das histórias que seu pai lhe contava, sobre homens que usavam uniformes.
 
E os dois seguiam a sua sina, cada um numa dobra do mar, fazendo suas tarefas. Muitas vezes Pacífico olhava para o céu e pedia:
 
— Oh! estrelas do Oriente, será que de repente numa noite dessas uma estrela cadente traz a sereia que tanto ouço em sonhos bons? Sei que ela existe, e para este velho lobo do mar só pela sereia hei de me encantar. 
 
E não é que certo dia, lua cheia se fez clarinha, fez o mar se abrir de luz azul, e o marujo avistou de longe uma mulher muito bonita e duvidou:
 
— Será que meus olhos, já salgados pelo tempo, enganam meu coração com esta doce alegoria?
 
Tomou o Leme do Capitão e sob pena de expulsão guiou o navio até o que via.
 
— Pacífico enlouqueceu! Solte já este Timão que estamos saindo da rota! Gritava o capitão.
 
Mas marujo retomou a memória do dia que a beira da morte viu uma sereia lhe salvar. Apaixonou-se de um sopro e saltando do navio, meteu a rosa entre os dentes e foi seu amor encontrar.
 
Angelina que via tudo, de longe reconheceu o ser da terra que outrora havia salvado e correu a lhe dar ar. Prestes a sucumbir teve ajuda dos peixinhos e levou seu soldadinho para as rochas respirar. Pacífico voltou à vida e vendo o navio partir desejou nunca voltar. Encantaram-se de pronto! 
 
Angelina dividiu sua cauda dando metade a seu amado, despiu-lhe o uniforme e junto dele foi morar. 
 
Pacífico deixou de ser da terra e respira hoje por beijos, vivem entrelaçados de amor e do encanto do seu mar. Deste dia então até o mundo ficou mais bonito, pois eles habitam o infinito do amor dos que sabem sonhar.
 
 
Janaina Leão, psicóloga

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