A vida e a arte

Por: José Borges da Silva

Outro dia, ao comprar um jornal numa banca da cidade vi, de passagem, uma revista do Batman, trazendo na capa a paisagem sombria da velha Gotham City da nossa imaginação. A nostalgia me empurrou e comprei-a, pensando visitar emoções da adolescência. Foi a maior decepção. Praticamente não entendi nada. Parecia que a história começava no meio. E quase não tinha texto também. Os desenhos, então, eram uma massa disforme, lúgubre em excesso. Lúgubre em excesso porque histórias do Batman sempre têm algo de lúgubre, mas um lúgubre chique, charmoso, apenas para despistar a identidade do jovem e milionário herói. Mas, na história da revista que comprei o herói não estava em apuros, estava agonizando, com sangue jorrando aos borbotões, saindo de feridas imensas abertas no seu rosto e peito. Arrastava-se, sem o uniforme, por uma região erma, deixando um rio vermelho por onde passava. Parei de ler porque não vi possibilidade de o autor da tragédia emendar o enredo para que o elegante Bruce Wayne pudesse voltar à vida social da metrópole. E acabei com saudades das primeiras histórias em quadrinhos que li... Traços rústicos, rabiscados, até mesmo alguns borrões. Mas as histórias eram sempre coerentes, do bem vencendo o mal sem grandes efeitos colaterais. E nem havia o “politicamente correto” de hoje, que limita as falas, os gestos, os pensamentos, o comportamento espontâneo... Bandido era bandido e todos podiam odiá-los. Depois, os gibis também evoluíram. Os desenhos ficaram coloridos, lisos, parecidos com fotografias. E houve histórias em quadrinhos de fotografias mesmo, as fotonovelas, e até uma revista de faroeste, a Revista Ringo, que trazia resumos dos filmes clássicos do gênero. Mas, quanto aos heróis de hoje, quando não perdem, sofrem mais do que os vilões ou são mais malandros do que eles. E habitam um universo sem precisão, desagradável. De início me veio a impressão de estarmos num fim de ciclo, em que se esgotaram as histórias interessantes. Mas, percebi logo que as histórias em quadrinho de hoje pretendem ser mais realistas do que as de ontem. E por isso mesmo andam chatas... Claro que do meu ponto de vista, porque gosto de literatura, música, cinema, gibi, de arte em geral, na versão entretenimento. Algo pra me descansar da realidade. A arte sempre irá se expressar no plano da realidade, por falta de alternativa, mas penso que se torna mais interessante quando não se deixa aprisionar pelo fatalismo do dia a dia. A vida é séria demais e já tem o seu espaço. Apenas repeti-la no plano da criação artística me parece enfadonho e sem graça!
 
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 

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