A primeira e a última impressão

Por: Maria Luiza Salomão

Depois de uma rapidíssima primeira impressão (ética e estética) editamos uma imagem do interlocutor. Com juízos e preconceitos sustentados, frágil ou solidamente, em experiências passadas, em desejos e esperanças, desenhamos um rosto, colorido de paixões circunstanciais: raiva, alegria, ceticismo, melancolia, competição, inveja, ciúmes, simpatia.
 
A primeira impressão é original, genuína, e nem sempre equivocada. Mas a senhora Prudência aconselha a duvidar das primeiras impressões. 
 
Em geral, a última impressão é aquela que fecha uma espécie de juízo final sobre uma pessoa. Ela pode levar a por um ponto final em uma relação, por melhor que tenha sido, ao condensar alhos com bugalhos, laranjas com couves, enfim, se misturarmos todas as impressões em um liquidificador, nem sempre com pertinência. A última impressão que costumamos guardar de uma pessoa tem cores fortes e contornos definidos: ela é feita de experiências passadas, cimentadas em sentimentos e sentidos. Assim, essa impressão última pode enterrar aqueles desejos e aquelas esperanças, ao ajuizar e conceituar a pessoa, de forma absoluta. 
 
 Com a idade, passamos a discriminar, principalmente, os critérios que nos fazem julgar e conceituar as pessoas. Mas, tanto quanto a primeira impressão, a última (por vezes, definitiva impressão) pode nos fazer errar e sepultar possibilidades, ou mesmo a continuidade de vínculos.
 
Impressões se sucedem, como estações climatológicas, e continuamente transformam os juízos e conceitos. Fechamos, também, capítulos de vivências e o rumo das futuras relações tende a memórias de arquivo, ou, na pior hipótese, memórias de arquivo morto, o que é de péssimo prognóstico. Somos vítima ou algoz, ou os dois simultaneamente, dessas memórias de arquivo morto: não é experiência aprazível, embora seja a coleção de impressões e de experiências um fator fundamental para se ter a sabedoria de gentes. 
 
Guardo a fotografia das primeiras e das últimas impressões que tenho das pessoas: elas me informam muito menos das pessoas em questão, do que de mim, dos critérios que me levaram a colocá-las sob uma luz ou outra, em um fundo perceptivo ou outro. Por “fundo perceptivo” quero me referir ao tempo e ao espaço em que pude conviver com a pessoa, com todas as implicações afetivas e históricas que tempo/espaço acarretam. 
 
As primeiras e últimas impressões sobre alguém me revelam as minhas metamorfoses e o que de mim permanece, persiste, resiste e que me revela: ainda ingênua ou mais sabida. 
 
Alguma ingenuidade abre espaço para maior sabedoria, na somatória de todas as impressões, para manter a fé em mim, e, consequentemente, no outro. Um sábio deve se manter capaz de se surpreender.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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