Na palma da mão

Por: Eny Miranda

Palpei os bolsos do casaco tentando encontrar o celular (gesto corriqueiro para muitos, não para mim. Costumo levar o telefone na bolsa). Ao executar o movimento me veio uma sensação antiga, velha conhecida, ausente, porém, desde há muitos anos. O que seria? Não consegui descobrir.
 
Passaram-se os dias sem que eu pensasse mais nisso.
 
Hoje, com a queda brusca da temperatura, volto a vestir casaco e a pôr o celular em um de seus bolsos. Pretendendo ligar para uma amiga, torno ao mesmo gesto do outro dia. E a mesma sensação me vem, só que mais forte, e nítida: o paletó é branco; não sou eu quem o usa, mas papai. Tateia o bolso inferior com a mão direita, delineando alguma coisa em seu interior, exatamente como fiz há pouco. Está em busca de, quem sabe, um papel dobrado ou uma caixinha de remédio. A outra mão, espalmada sobre o bolso superior esquerdo, exibe a aliança que leva no seio o nome de mamãe. Com o tronco e os joelhos levemente fletidos, tenta alcançar a mesinha baixa em que, provavelmente, depositará o objeto buscado. O paletó está aberto e pende para o lado examinado. No tecido, os vincos típicos de um dia inteiro de uso no trabalho. Papai acaba de chegar do consultório. 
 
Não consigo ver muito mais, mas infiro que é tarde e que as marcas do cansaço já estão aparentes em seu rosto. Não obstante, deve ter trazido alguma surpresa gostosa, alguma história daquelas que só ele sabia contar, uma ideia nova, o projeto de um sonho, de uma viagem ao interior, à sua origem, “para comer carne de capado, conservada nas latas de banha, e feijão pagão, ou tutu, com torresmos.” Tudo, naturalmente, feito em fogão a lenha; a carne e o toucinho de porco criado a inhame, verduras e frutas plantados e colhidos ali mesmo, “nada desses artificialismos de cidade grande.” E nos apresentar a uma jabuticabeira carregadinha de frutos maduros. “Dão agarrados no tronco e nos galhos, coisa linda, diferente de tudo o que já viram.” E nos fazer experimentar “a fruta molhada da chuva estalando dentro da boca, doce feito mel.” Dizia-nos isso com tanto prazer, com tanto gosto (e saudade), que nos transportávamos com ele à sua infância. 
 
Já nos havia levado, de fato, ao interior das Gerais, mais de uma vez, mas nunca chegamos a ver as jabuticabeiras, nessas nossas idas, e, se provamos o lombo com tutu e os torresmos de banha de capado criado com frutas e legumes frescos, seu paladar, para nós, “meninos de cidade grande”, provavelmente nunca foi igual àquele da infância de nosso pai, na roça. Com certeza, nem para ele, agora. Afinal, “nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio por duas vezes, porque nem o homem nem a água do rio serão os mesmos. Tudo flui.” Já dizia Heráclito, há cerca de 2.500 anos. 
 
Papai nunca desistiu, contudo, de suas viagens “aos seios de Duília”. E íamos com ele, em verdade ou em sonho, pisando chão batido ou navegando causos, de que era grande contador; provando lombo de porco e torresmos com tutu, feitos em fogão a lenha; descobrindo lugares encantados, alagados de sol ou alegrados de chuva, cheiro de verde molhado, de goiabas inchadas e jabuticabas colhidas no pé: gosto arregalado de vida presente, gratuita, possível - mesmo num simples gesto de mão.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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