Quanto vale um bom conselho

Por: Everton de Paula

Meu pai, que era professor e dentista numa escola do estado, numa época em que essas duas profissões comportavam notável status social, disse um dia a minha mãe, ao despedir-se dela na porta de casa:
 
- Diga ao garoto que, se estiver com vontade, pode arrumar o seu quarto depois de fazer todas as lições da escola.
 
O garoto era eu.
 
Depois de descer alguns degraus do alpendre para a calçada, voltou-se e acrescentou:
 
- Diga ao garoto que convém sentir vontade.
 
Naquela manhã, embora tivesse outros planos, como qualquer adolescente da minha idade, fiz todas as lições de casa e arrumei o meu quarto. Rindo da recomendação de meu pai, notei que o trabalho não era dos piores. E antes de terminá-lo estava realmente gostando. Mas não podia sonhar que, 50 anos depois, ainda ouviria o eco do sábio conselho de meu pai: “Se não aparecerem trabalhos de que você goste, trate de gostar dos que aparecerem.”
 
Não pude escapar àquilo, nem mesmo na escola. Eu detestava Harmonia Tradicional, nas aulas de piano no conservatório. Quando ingressei na faculdade de Letras, ansiava pelo dia em que não me fosse mais preciso estudar a infeliz matéria. Enquanto isso, tinha que fazer os cursos obrigatórios... Aquele quarto precisava ser arrumado. E foi então que me veio à ideia o conselho de meu pai: era melhor sentir vontade.
 
Por incrível que pareça, quando terminaram os cursos em que se incluía Harmonia Tradicional, resolvi espontaneamente seguir outros, abrangendo Harmonia Avançada em aulas particulares, embora cursasse o nível Clássico. Estudei Harmonia e xadrez. E descobri que o conselho paterno, parecendo simples e terra-a-terra, revelava uma visão arguta da vida cotidiana. O fato de se extrair satisfação e alegria, entusiasmo e vibração das tarefas que aparecem depende menos das tarefas em si do que da atitude pessoal de cada um.
 
O conselho de meu pai tem-me ajudado principalmente em relação às coisas enfadonhas. Por mais empolgantes que sejam os aspectos proeminentes de qualquer profissão, todas elas são como um iceberg, com o pico visível e a maior parte embaixo da água a rotina invisível, os pormenores desinteressantes, as tarefas desagradáveis. E a atitude do homem em relação a este aspecto de seu trabalho muitas vezes determina todo o resultado.
 
Em todas as vocações há necessidade de muita “arrumação de quarto” rotineira. E os especialistas de todos os setores, desde os negócios até as artes plásticas e à música, poderão confirmar que eu digo a verdade.
 
Passei dos 60 anos de idade. As leis de trânsito de minha cidade consideram-me idoso e me permitem estacionar em lugares privativos. Tenho travado uma batalha intensa e feroz entre o vigor espiritual que ainda trago comigo e este corpo que me sustenta em pé. Minha mente ainda é do adolescente que arrumava quartos, mas o joelho dói. Talvez ficar mais velho tenha sido a pior de todas as tarefas de minha vida. E é nesses momentos que ouço ainda o conselho de meu pai, agora com referência ao envelhecimento: “Diga ao Everton que convém sentir vontade.”
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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