A culpa é sua, doutor!

Por: Chiachiri Filho

Há médicos muito competentes. Dos já falecidos, lembro-me do Dr. Jarbas Spinelli. Com uma simples olhadela e algumas apalpadas, ele sabia a doença que afligia o paciente sem a necessidade de inúmeros e complicados exames. Feito o diagnóstico,   o Dr. Jarbas já dava logo a terapêutica ou a sentença de morte.
 
Há médicos autoritários e prepotentes que não têm receio de dizer aos seus pacientes:
 
- Se você não emagrecer, não precisa mais aparecer em meu consultório.
 
Há médicos incompetentes que não sabem sequer distinguir  uma infecção de  amígdala  de uma  retenção alimentar na garganta do enfermo.
 
Não há dúvida que a profissão é muito penosa. Passar o dia inteiro tratando de doentes e, também, de suas famílias não é fácil. Portanto, mais do que qualquer outra profissão, a medicina exige vocação ( o que nem sempre é encontrado em alguns facultativos ). Há médicos que acordam com raiva, vão para o consultório com raiva, voltam para a sua casa com raiva.  Há outros que nasceram para ser médicos. Gostam da profissão. Tratam o seu paciente com calma, educação e humanidade.
 
Um desses médicos recebeu, certa feita, em seu consultório um paciente daqueles teimosos, desobedientes, inconformados. Porém, era uma pessoa educada e persuasiva. Feito o diagnóstico, o médico passou às restrições:
 
- Não pode isso, não pode aquilo, restrinja o sal, o açúcar, o álcool...
 
À cada restrição o paciente ficava mais inconformado.
 
-  Mas, Doutor, dizia ele, desse jeito a minha vida vai ficar muito sem graça. Tudo é proibido, tudo faz mal... 
 
Tantos foram os lamentos que o médico, condoído, foi abrandando as restrições até chegar no ponto que mais interessava ao paciente.
 
- Quer dizer que eu posso tomar uma bebidinha, não é?
 
E o médico:
 
- Pode. O que você não pode é tomar todo dia.
 
Daí uns meses o médico foi chamado ao Hospital para atender um seu paciente que não estava passando bem. Ao chegar, foi logo percebendo que era o tal da bebidinha. Sua curva glicêmica estava nas alturas e o seu quadro era de um pré-coma alcoólico. Sua mulher, que estava à beira do leito, foi logo dizendo:
 
- Eu avisei, Doutor, para que ele não enchesse a cara, mas ele não me ouviu. Disse-me que o senhor o havia autorizado a beber. É verdade?A culpa  é sua, Dr.?!
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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