A Praça do Poeta

Por: Hélio França

Disse uma vez o poeta que o galo é um apagador de estrelas. Nada mais lógico, principalmente em se tratando de uma consideração poética dita ( e escrita ) pelo nosso querido Josaphat. Sei perfeitamente que ele buscava inspiração na sua própria maneira de sentir e “ouvir“ a poesia, mas que diabos, até um canto de galo ficava audível em seus contos ou poemas! 
 
Principal suspeito para falar sobre o vate, como filho, não posso, mesmo assim, sabotar minhas lembranças de vê-lo declamando, às vezes baixinho, suas composições entremeadas de sentimentalismo lírico. Excessivamente tímido, não logrou se tornar conhecido além do eixo Franca/Ribeirão Preto, ainda que seu talento tivesse encaminhado sua timidez até a Academia Brasileira de Letras, quando ganhou o primeiro prêmio em num concurso de poesias de âmbito nacional, com o livro intitulado  A Solidão Povoada. 
 
Como se adivinhasse, deixou-nos numa solidão devastadora de sentimentos e saudades, povoada pelas lembranças de suas poesias, contos e crônicas, pela delicadeza de seus atos e por uma rara pureza de espírito. 
 
Se vivo estivesse, completaria 102 anos neste sábado passado, 19 de julho de 2014. Por uma incrível coincidência neste mesmo dia foi inaugurada uma praça aqui em Franca, bairro Jardim Redentor, denominada “Praça da Juventude Poeta Josaphat Guimarães França.” Fomos à inauguração, minha mãe, minha irmã e eu, porém, para nós, era como se fosse  uma festa de aniversário dele. Não obstante lá estivessem as faixas alusivas ao evento, mais que a leitura delas através do olhar, foi o sentimento de sua presença espiritual que se impôs entre todos os presentes e em nosso coração. Sim, Josaphat “lá estava”, como sempre, num cantinho mais distante das autoridades, com as mãos para trás, só observando com seu característico misto de timidez e humildade. Porém, feliz e orgulhoso, pelas lágrimas de emoção que mamãe deixou escapar quando do descerramento da placa com seu nome. Durante os discursos de inauguração do Presidente da Câmara, do representante do Governo Federal, do Vice-Prefeito, e do Prefeito, além de ouvi-los, pensava eu com meus botões que, por mais producente que sejam as atividades esportivas ali desenvolvidas pelos jovens da região, os quais talvez nem saibam quem foi o homem que deu nome ao complexo esportivo, as autoridades políticas deveriam preocupar-se, além das obras físicas, com a divulgação da obra do poeta, suas poesias, seus livros, promovendo assim uma oficina de formação cultural, somando no mesmo local a educação esportiva com a literária. Dessa forma ficaria mais fácil desenvolver não somente os músculos mas também a mente, o raciocínio lúdico, os afetos. A educação esportiva pode e deve caminhar de mãos dadas com a poesia, com a beleza, com a literatura. É preciso despertar o interesse pelas letras, pelo nosso idioma e pela formação moral dos cidadãos. Os jovens desta cidade não conhecem seus escritores. 
 
Talvez tenha faltado nesta praça, como em tantas outras similares em construção na cidade, uma sala específica para leitura e conhecimento, não apenas das obras do poeta, mas de outros escritores francanos. Enfim, convém salientar uma nota triste no dia do evento. A praça foi inaugurada pela manhã e de tardezinha já tinha sido depredada e pichada, com chuveiros e vasos sanitários arrancados e  bebedouros mutilados. Uma pena que nas demais praças e espaços públicos de Franca também não tenham sido instaladas salas específicas para o desenvolvimento educacional por meio da leitura, não só para jovens mas também para idosos. Ninguém depreda conhecimentos culturais e  artísticos amealhados e inseridos no âmago das pessoas, porque o que nos provoca emoção fica arraigado para sempre na praça de nossas almas, no caminho de nossos princípios e nos braços de nossas virtudes. 
 
O concreto é apenas físico e às vezes deforma as pessoas. Ao contrário, a poesia conforma, porque molda o espírito. Neste Brasil com a educação em pedaços, vamos juntando os cacos e jogando debaixo do tapete. Parece mais fácil. 
 
 
Hélio França, engenheiro e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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