Ruínas, encantadas

Por: Maria Luiza Salomão

Toda ruína é encantada: ali resistem sonhos de imortalidade, subsiste aquilo que não pode ser destruído pelo tempo, toda ruína canta feitos passados para distraídos passantes. 
 
Tenho várias ruínas que cantam na minha memória. Uma cabine de caminhão, no quintal da Rosa, filha do Sr Rafael, dono do posto de gasolina. Ali, entre ferrugens e capins, fiz viagens inesquecíveis. Ali, quando sentada, não alcançava direito a direção, e via em pé no banco através do para-brisa, um mundo pela frente. 
 
Em qualquer terreno baldio, e na periferia da pequena cidade em que nasci, eu sempre encontrava uma casa arruinada, com assoalho em que brotava um arbusto, algumas flores do campo: margaridinhas frágeis amarelas, brancas, rosadas. Casas sem teto, com meias paredes, de onde saíam samambaias. Gravados iniciais de nomes, frases. Os visitantes eram muitos das ruínas. Às vezes um lagarto passava correndo, e sempre havia o temor de cobras aparecerem bruscamente. 
 
Quando conheci as ruínas, em Roma, tive uma emoção intensificada por essas vivências de garotinha do interior. As minhas ruínas encantadas não constam de livros históricos, nem sua geografia é precisa, mas elas me faziam meditar, desde muito pequenina. 
 
Quem morou nessa ruína? Por que jaz abandonada? Onde estão os moradores? O que me dizem os pedaços que restaram? O que fez o tempo poupar alguns pedaços e dissolver outros? O que não pode ser corroído, desgastado, destruído pelo tempo e pelo abandono?
 
Coisas assim de uma empírica filósofa de dentes de leite. 
 
Continuo assim quando me deparo com uma ruína. Há sete anos acompanho uma ruína encantada na R. Marquês de São Vicente, ao lado de uma ruína de Mata Atlântica, o pouquinho que restou dela na cidade do Rio de Janeiro, Baixo Gávea. Uma rua importante, que leva à Rocinha, a maior favela carioca (opa! favela é ruína de palavra). Rebobinando: a maior comunidade carioca. 
 
Essa ruína encantada, edificação construída por Moura Brasil (desconheço quando), está na justiça. Valiosíssima, como não? Quem dela se dispuser, vai destruí-la: ela vai virar estacionamento da PUC, supermercado, ou outro prédio que vai me tirar a visão do morro Dois Irmãos. A Associação dos Moradores da Gávea está vigilante: não quer qualquer um arruinando a ruína. 
 
Ao contemplá-la, de tanto contemplá-la, eu sei que chorarei a sua perda: as árvores que nascem dos tijolos das paredes, os macaquinhos que vivem por ali, os gambás que estão em casa, as paredes engolidas pela mata, e um senhor que varre todos os dias a ruína. Deve ali morar, por certo. 
 
Seres humanos também sobrevivem com ruínas encantadas, dentro de si: quantos pedaços de nós subsistem, sobre-insistem em permanecer, mesmo quando cremos que há ordem e progresso na singular e histórica trajetória. É o caso de destruí-las? 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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