O teatrólogo Plínio Marcos

Por: Caio Porfirio

Plínio Marcos, falecido no final de 1999, era um tipo curioso. Gordo, relaxado no vestir, de sandálias, short e gorro na cabeça. Dava a impressão de que andava - impressão apenas - permanentemente sujo. Teve altos e baixos na vida. No início de sua carreira de teatrólogo, estourou com o sucesso retumbante de Navalha na Carne, Abajur Lilás, Dois Perdidos Numa Noite Suja... Depois, com a repressão e a moralidade hipócrita da ditadura, veio a “baixa temporada”. Vendia os seus livros nos bares do bairro do Bexiga, de vida noturna sempre iluminada, em São Paulo; vendia-os diretamente ao consumidor, nas escadarias do Teatro Municipal e nos eventos culturais. Mas quase não os oferecia. Ficava num canto, em pé, calado, e estendia o livro quando alguém passava perto dele. Parecia um pedinte, um mendigo. Claro que não era uma coisa e nem outra. Já que não podia levar os seus textos ao palco, fazia o seu teatro pessoal, naquela postura doída. No fundo, um protesto tremendo e silencioso aos fardados do poder. Calado e firme, parado, esperando...
 
Sócio da União Brasileira de Escritores. Nas poucas vezes em que lá aparecia informava-me, valendo-se do mesmo refrão:
 
- Qualquer dia eu volto.
 
Nas bienais do livro, promovidas pela Câmara Brasileira do Livro, lá estava ele, encostado ao estande da UBE, mostrando os seus livros em edições precárias. 
 
Na gestão do escritor Ricardo Ramos, resolveu-se que no estande da UBE não se venderia mais livros. Seria um ambiente para acolher escritores de fora, divulgar e promover a entidade.
 
Pois num dia cheguei ao estande e lá estava o Plínio Marcos sentado, pernas estiradas, o corpão todo relaxado, e vários livros seus na mesinha.
 
- Plínio, você não está sabendo que ninguém pode mais vender livros aqui?
 
- Se é porque devo à UBE, Caio, eu pago.
 
- Não é por isto, Plínio. É resolução da diretoria.
 
Não me deu ouvidos. Lá ficou ele, e gente aparecendo e comprando os seus livros, porque Plínio Marcos era conhecidíssimo e admiradíssimo.
 
Chegou o Ricardo Ramos, presidente da entidade, e também não gostou:
 
- Por favor, Plínio. Nem eu posso vender os meus livros aqui. Não estamos expulsando ninguém. É resolução unânime e definitiva da diretoria. Nem Jorge Amado, nem Rachel, ninguém vende aqui.
 
- Tudo bem, Ricardo. Vou ficar só mais um pouco. Aqui está ótimo, com este ventinho, e estou muito gordo. E veja que não estou vendendo nada. Os que passam é que pedem. O que é que eu vou fazer? Dar de graça?
 
Não adiantou insistência, nada. Como um Buda, meio na pasmaceira, lá ficou a bienal inteira. E ia vendendo seus livros, no silêncio, na maciota, indiferente ao burburinho geral. E ninguém ficou com raiva dele. Até eu mudei o meu comportamento:
 
- Vendendo bem, Plínio?
 
- Vai indo, vai indo...
 
Teatrólogo de grande talento, viu a chama da sua arte plena de denúncias trepidantes e ferinas retornar à sua luminosidade anterior nos últimos anos de sua vida. Deu várias entrevistas às televisões, suas peças retornaram aos palcos e as adaptadas ao cinema, às telas cinematográficas. 
 
A última vez que o vi foi durante a Feira do Livro de 1999. Lá estava o Plínio Marcos, sozinho num estande vazio, não me lembro de qual editora, só ele e mais ninguém. Sentado, gordo como sempre, uma pilha de livros sobre a mesa ao lado. Saudamo-nos e me aproximei. Conversamos um pouco. Eu praticamente falava sozinho, porque ele era mais de ouvir. Quando me despedi, avisou-me:
 
- Qualquer dia vou à sede da UBE.
 
Eu sabia bem que aquilo era um refrão, sempre que me encontrava.
 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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