Decisão

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Aquela fotografia em suas mãos provocava oscilações em seus pensamentos. A imagem solidificada era uma parte de sua vida. Os seus sentimentos estavam ali presentes. Um momento feliz retido para sempre. Ao fundo, flutuavam nuvens brancas em um céu tão azul quanto seus olhos. O sol dourava as folhas secas, amarelecidas, dos plátanos que forravam o chão. Um canteiro repleto de flores miúdas e coloridas fazia par com suas roupas de lã. O gorro que lhe cobria parte da cabeça deixava à vista cachos loiros, emoldurando- lhe a face com pontos vermelhos causados pelo frio, mas luminosa como a alvorada. Ele, alto e forte, tinha traços rígidos insinuando impetuosidade. A foto dos dois aconchegados revelava aquilo que vivera. O passado a fez decidir o presente.
 
Seu amor não arrefecera na ausência dele, mas sua vida perdera o brilho. Conhecera o gosto acre da solidão. Nada o detivera em sua casa. Dedicação, voz firme e suave que a tudo organizava com bom gosto e classe, o talhe esguio e trajar elegante, os carinhos e atenção não o contentaram. Guerreira e laboriosa, usava seu tempo livre para despertar talentos, exímia pianista, ensinando aos pequenos que se interessavam por esta arte. Idealizara ser uma boa esposa, tinha-lhe um imenso bem querer, mas ele a deixara em busca de sensações mais fortes, emoções fugazes e júbilos efêmeros. Uma jovem descompromissada fizera companhia a ele em suas novas escolhas. A inconsistência deste relacionamento não permitira que o mesmo perdurasse.
 
 Quando, agoniado, quis regressar ao lar, ela procurou lembranças da vida em comum e vendo a foto daquela viagem, decidira-se por ele. Preservada na fotografia, a riqueza daqueles instantes a sustentara naquela decisão. Tivera bons e maus períodos em sua vida, no passado. Uma ocasião favorável deslumbrava-se no presente e este é o melhor tempo. Não podia recusar. A esperança habitava sua alma novamente.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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