Um roteiro para a vida

Por: José Borges da Silva

Uma ou duas vezes por semana, à noite ou no final de expediente, crio um arquivo no micro para tentar escrever alguma coisa. A esse propósito, no final de julho comecei a analisar fatos recentes na mídia, para colher alguma ideia, e levei um susto. No prazo de uma semana morreram nada menos do que quatro escritores famosos: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves, Ariano Suassuna e Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Este último, mais conhecido dos aficionados da Astronomia, porque era um dos mais importantes astrônomos do Brasil, tendo publicado 98 livros. Indiscutível a importância do trabalho de cada um deles. Poucas pessoas têm o entusiasmo que o Suassuna tinha pela profissão e pela vida. Parece que uma espécie de dinamismo especial o animava. João Ubaldo Ribeiro, bonachão no jeito de contar histórias, era ainda roteirista maior. Rubem Alves, educador, psicanalista, teólogo, muito ético, foi educador e estudioso do comportamento humano. E Ronaldo Mourão, um perscrutador do Universo, entre outras coisas era especialista em estrelas binárias e ídolo local dos aficionados por astronomia. Consideradas as qualificações dos falecidos, deve estar havendo mudança de roteiro nas nossas vidas lá no céu, e o encarregado do projeto parece estar convocando colaboradores. Um mutirão, só pode ser isso. Seria porque, nessa luta dos diabos pra ganhar dinheiro, estamos destruindo o paraíso que nos foi dado? Ou será que o excesso de sujidades nos meios políticos tem provocado mudanças de rumo nas instâncias superiores da vida? Quem sabe se com roteiro controlado, como o dos macacos, talvez tenhamos chance de sobreviver... Bobagem isso, claro! Segundo Darwin, foi com um roteiro desses que tudo começou... E deu nisso! Talvez o mais provável seja que estejam pensando em mudar o rumo das coisas por causa da falta de seriedade dos que detêm o poder por aqui. Massacre na Faixa de Gaza, na Turquia, fratricídio na Ucrânia, na Nigéria... E, um pouco mais perto de nós, arrastões, latrocínios, mortes, estupros. E aquela decisão do nosso TCU, isentando Chefias graúdas pela compra da refinaria de Pasadena pela Pretrobrás... E condenando um diretor que já estava fora! E a reunião do Mercosul, então? A Argentina deu o calote e chama os credores de urubus; a Presidente do Brasil exigindo cessar fogo em Gaza com ares de imparcialidade, depois de ter sido criticada por tomar partido no conflito... E a história de passarinho do presidente da Venezuela? Mas, como governantes são meio santos para os povos mais simples, seria bom que recebessem um roteiro divino para seguir. Mas não sem uma punição também divina quando saíssem fora dele. Algo como começarem a feder ou a queimar, automaticamente, ao tergiversarem. Teriam uma espécie de liberdade vigiada, como presos que recebem tornozeleiras. Talvez assim se tornassem mais sérios.
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 
 
 

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