Querido irmão,

Por: Maria Luiza Salomão

Você me acompanhou na gênese de muitos ideais. Nas minhas palavras de hoje, na gênese de muitos sonhos! 
 
Ontem revi ‘As Pontes de Madison’ e marquei uma fala de Roberd Kincaid (Clint Eastwood): o personagem diz que, mesmo não tendo conseguido realizar os seus sonhos passados, continua achando que foram belos sonhos e permanecem como sonhos dele (mais ou menos assim, suas palavras). Gosto de ter tido aqueles sonhos que você me relembrou, mesmo que eles não tenham se realizado. Você presenciou quando eles nasceram em mim.
 
Sonhos de combate à desigualdade social, de busca de novo regime político que permita às pessoas, de qualquer raça, cor, status sócio-econômico, conseguir o mínimo para sobrevivência digna, como seres humanos. Mesmo que tenha me decepcionado com pessoas que pareciam compartilhar dos mesmos sonhos. 
 
O povo é metáfora na boca dos políticos. Educação & Cultura são interesses pouco considerados. Tinha um ideal, quando militava politicamente - conseguir uma mudança nas relações afetivas, sem o sentido de posse, ninguém propriedade de ninguém. Não reconheci nenhuma revolução vermelha, até hoje. Pensei, rindo, ao te escrever, que gostaria de uma revolução laranja (que não se confunda a cor com os holandeses, colonialistas terríveis dos africanos e que fomentaram o apartheid). Laranja como o nascer do sol: gema de esperança.
 
A vida é complexa, e sou uma formiguinha que tenta fazer o melhor que pode no estreito mundo do qual faço parte. Sem radicalismos. Amadureci. Fico hoje com o radicalismo das plantas, raízes fincadas na terra e tentando crescer espiritual e psiquicamente, quem sabe, com muita sorte, deixar algumas sementes.
 
Sonhos são sonhos, mas nos revelam. Nunca me reconheci materialista. Gosto do meu trabalho, e de tanto gostar dele, ele me foi instrumento para atingir alguns objetivos: crescimento da minha humanidade e me tornar autossustentável. Sou agradecida por ganhar o suficiente para sustentar minha fome de Beleza. Continuo à procuro a Bondade, feito o Diógenes, que procurava um homem honesto, de lanterna na mão, pelas ruas de Atenas. 
 
Fui ao planetário no Rio e descobri que a cor azul é a cor do planeta mais quente. Não é o vermelho. Então, digamos que, seguindo a temperatura do meu temperamento apaixonado, sou planetariamente azul. 
 
Sigo o ritmo de um jazz, dia a dia. Improvisar só é possível depois de muita experiência acumulada e compartilhada. Isolada e ‘verdinha’ de experiências pessoais e coletivas, a gente não amadurece. Conviver é fundamental para provisionar sabedorias. Improviso: provisão para dentro. Na vida sempre mutante, saber de onde tirar soluções e aprendizados.
 
Você me lembrou das minhas utopias, coisa completamente fora de moda, mas nem por isso deixei de tê-las. 
 
Permaneço sonhadora. Meu roteador não segue ideologias, direita-esquerda- centro, mas sonhos. Uns são solares, outros banhados pela luz da lua, outros engavetados, esperando uma oportunidadezinha ou coragem para circular. 
 
Abraço da irmã, com outra cor de cabelos, mas incrivelmente a mesma.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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