Grupão da Franca

Por: Everton de Paula

Aconteciam invariavelmente aos sábados, a partir das 9 horas da noite, geralmente na casa do Mazo, numa esquina da Saldanha Marinho. A sala, ampla e confortável, era iluminada com a luz frouxa e acolhedora de um abajur de canto. Dona Elza já havia preparado e posto os salgadinhos à mesa de centro: petiscos e uísque Old Eigth. Os importados só viriam mais tarde. O balde de prata reluzente fazia os cubinhos de gelo tilintarem juntamente com os primeiros acordes de violão que passava pelas afinações preliminares.
 
Aos poucos, a turma ia chegando. O Erlindo Morato, com sua flauta. Mal apontava na porta, somavam-se as gozações e anedotas a respeito da figura tímida e barbuda, ainda entristecida com a perda trágica do irmão Agnelinho. Mas era mais uma noite de encontro, de alegria, de música, de bate-papo, de bossa-nova. Logo a tristeza iria embora e o som harmônico de vozes e instrumentos tomaria conta da sala, dos quintais vizinhos, da rua, do quarteirão, dos nossos corações irmanados numa amizade que perdura até hoje, apesar das ausências físicas. A Wanira Salles e a Lurdinha Figueiredo diziam “presente” ao encontro, e emprestavam àquilo que chamavam de ensaio suas vozes macias, veludosas e calmas. Mas o rei da voz do grupo tinha trono vitalício: o Jairo de Carvalho, imbatível nas suas interpretações muito próprias. O Zezão já bebericava sua dose, enquanto tirava do pinho acordes impossíveis e encantadores. O Ulisses Minicucci, parceiro do Mazo em tantas composições, tomava seu lugar ao lado do companheiro e cantarolavam trechos da mais nova criação, depois do sucesso de Fim de Carnaval, que lograra o primeiro lugar num festival de música popular brasileira em Franca, na AEC, 1968, sob confetes e serpentinas: Os dias vão passando de mansinho, devagarinho, mas vão passar, as horas de alegria e folia, que ainda restam, vão se acabar... O seu Adhemar Rodrigues Alves, pai do Mazo, sentava-se a um canto apreciando tudo com um discreto sorriso de satisfação nos lábios, olhos semicerrados, marcando com a mão, no encosto da poltrona, o ritmo da música que se cantava. À minha frente a marimba, ou vibrafone portátil, mas só para algumas músicas e serenatas; de resto, cabia a mim a marcação no atabaque e vocal. Talvez eu fosse o mais desafinado da turma, mas a amizade era tanta que ninguém ousava ensinar ninguém. 
 
Pronto, o Grupão estava reunido. Entrava noite adentro, varava madrugadas e as canções mesclavam-se nos ares e uniam a nós todos num só elemento: a música.
 
As canções soavam em surdina, num tom intimista, próprio de quem aprecia música de boa qualidade como um enólogo degusta vinho de boa casta. Desfilavam sucessos da época, algumas antigas e várias composições do próprio grupo. Parecia um ritual ensaiado muitas vezes: interpretação de uma música e pausa para drinques e petiscos, anedotas e bate-papo descontraído, até que alguém citava o nome de uma canção. Aprovada, todos voltavam aos seus lugares e os ouvintes sentavam-se, silenciosos, para mais uma performance do Grupão. Às vezes, no meio de certas interpretações, o frisson era tamanho que merecia sinceros e discretos aplausos ou apupos de quem assistia. A lua, lá fora, empanzinada de beleza, dava longos suspiros ao ouvir o Jairo interpretando: Feelins, nothing more than feelings, Trying to forget my, feeling of love ... Morris Albert... Que momento mágico, arrebatador, esperançoso, terno... Seria a juventude? Seria a música? Não sei responder com certeza, sei apenas que o Grupão foi agente dessa magia que presente se fez em nossas vidas. 
 
Vez ou outra éramos convidados a cantar na casa de um amigo, de um parente. Sempre recebidos como artistas, muito bem-vindos e benquistos. Fazíamos a alegria de um aniversário, de uma data festiva, de um simples encontro... E nos dávamos aos luxo de atender pedidos.
 
Quantos casamentos então! Em Franca e cidades vizinhas. Certa feita, iríamos cantar Nuvem Branquinha na entrada da noiva. Havia um trecho dessa música que assim dizia: Nunca vi céu tão lindo assim, você junto a mim, sempre a me olhar...  Lá fora, uma tempestade se armava e trovões ribombavam por todos os cantos. E nós ali firmes: Nunca vi céu tão lindo assim... Não sei como chegamos ao final, mas me lembro que todos os presentes à cerimônia olharam para trás e para cima, no lugar do coro de onde cantávamos, para identificar as gargalhadas abafadas diante do inusitado.
 
Vieram os festivais. O Grupão tinha torcida organizada. Mas tinha também um rival fortíssimo e muito criativo: Betinho Eliezer e seu grupo. Os primeiros lugares revezavam-se entre os dois grupos, que ainda não conheciam celulares, drogas pesadas, computadores... Tínhamos por inspiração apenas o moto proprio da criação e interpretação, e por modelos os gigantes de então na bossa-nova e na música popular brasileira João Gilberto, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Toquinho, Banda de Pau e Corda... Quem nasceu lá e viveu, crescendo percebeu, o canto do ferreiro na casa do doutor, o velho mensageiro das cartas de amor, o homem e o vassourão limpando o chão da manhã... Sabe e crê e chora, vive cada hora, no canto do ferreiro da casa do doutor... 
 
Vivência! Tivemos uma saudável, inocente e alegre vivência, nós do Grupão. O canto do ferreiro ainda ecoa em nossos corações, trazido ao vento pelo velho mensageiro dos sábados à noite; hoje, limpamos o chão do passado mas não tocamos nas flores das velhas e boas lembranças. Confetes e serpentinas continuam a cair ante nossos olhos já cansados. Sabemos, e cremos, mas não choramos porque tudo valeu a pena! Meu Deus, como valeu!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras