A primeira história do mundo

Por: Ubiratan Brasil

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O corpo de um homem aparece morto em uma praia do Rio de Janeiro. A primeira suspeita é de crime passional, uma vez que a mulher da vítima interessava a diversos cidadãos da cidade, nobres ou não. Surgem, assim, diversos suspeitos.
 
Esse é o fio da meada do novo romance de Alberto Mussa, A primeira história do mundo, que a editora Record lançou no último maio.
 
Seria a premissa de mais um romance policial contemporâneo não fosse a época em que a trama é ambientada, o Rio de Janeiro de 1567, ou seja, quando a cidade tinha apenas dois anos de idade e contava com pouco mais que 400 moradores. O mais surpreendente é que, entre acusados e testemunhas, as investigações envolveram espantosos 15% da população.
 
Inspirado em um fato real, o grande trunfo está na opção feita pelo autor para conduzir a narrativa. Mussa adotou o que se pode chamar de romance opinativo, reflexivo, em que o narrador tempera a ação com palpites e avança na trama lado a lado com o leitor, de forma que ambos raciocinam juntos até desvendar o crime. E a forma como se desenrola A primeira história do mundo é, realmente, convidativa. O assassinado, por exemplo, é um serralheiro, portanto, membro de classe humilde. Sua mulher é uma desejada mameluca, ou seja, filha de índio e branco, o que a rebaixa ainda mais na hierarquia social. Entre os suspeitos do homicídio, estão homens de posses que, por motivos diversos, não se conformaram em perder a moça para um trabalhador braçal.
 
Assim, o motivo do crime, seja qual for o autor, é de natureza sexual. E naquele Brasil original, quando os portugueses interpretaram a liberdade sexual, o homossexualismo e a nudez indígenas como perversão moral ou de inspiração demoníaca, os conflitos sexuais assumiram uma importância exorbitante. Particularmente numa cidade como o Rio de Janeiro da época, onde havia mais homens que mulheres. 
 E as suspeitas que ora surgem, ora caem, são as mais interessantes ao longo da trama. O corpo do serralheiro, por exemplo, é encontrado na praia crivado com sete flechas, mas o laudo médico vai comprovar depois que a causa da morte foi uma oitava flechada, que atingiu o rim. Misteriosamente, porém, essa foi a única flecha não encontrada.
 
O uso dessa arma incriminaria, inicialmente, os índios que, à época, viviam aos montes e distribuídos em várias tribos. Os tamoios que ali habitavam, tinham o hábito de estourar o crânio da vítima, depois de a matar. E o serralheiro é encontrado com a cabeça infectada. Mas as flechas retiradas de suas costas eram mais curtas que as usadas pelos indígenas, o que aumentava a suspeita sobre algum cidadão do Rio de Janeiro.
 
Na trama, Mussa evoca constantemente o mito das Amazonas, ou seja, guerreiras que não admitiam homens em seu convívio, aceitos apenas para ajudar na procriação e, dessas relações, sobreviviam apenas as meninas, pois bebês homens eram impiedosamente mortos. Já existia um mito de mulheres sem marido, entre indígenas americanos, que se fundiu com o das Amazonas propriamente ditas. A mitologia, que nasceu com o Homo sapiens, é exatamente assim. Ao redor das fogueiras paleolíticas, depois de longo dia em busca de alimento, as pessoas se reuniam para ouvir histórias e se divertir. E era nessa hora que vinham à tona as grandes reflexões sobre a condição humana. Por isso, por essa dupla natureza, os mitos continuam sendo contados até hoje, centenas de milhares de anos depois. 
 
O desafio do escritor, em A primeira história do mundo, foi encontrar o correto balanceamento entre uma escrita sofisticada e outra mais divertida, capaz de fisgar a atenção do leitor. Para isso, Mussa apresenta uma cidade ainda precária, primitiva, recheada de improvisações, que se transforma, a partir da narrativa, no marco zero de um mundo ao mesmo tempo novo e hostil. A mágica está em transformar aqueles fatos seculares em algo atual, ou seja, fazer o leitor acreditar que está diante de uma investigação que parece se desenrolar hoje. Essa atualização acontece, gratificando o leitor a cada página.
 
 
Poliglota e polivalente
 
Alberto Mussa, 52 anos, carioca, dois filhos, vem de família classe média, pai juiz que morreu desembargador, mãe dona de casa apreciadora de música popular e leitora de Agatha Christie. Morador do Grajaú, tradicional bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, quando menino Mussa subia o Morro do Andaraí e se misturava às crianças e adolescentes da favela, com quem jogava bola e capoeira. À noite, lia. O pai libanês, que havia chegado ao Brasil aos 16 anos, tinha um lado filósofo e outro escritor, além de ser leitor compulsivo. “Nasci numa biblioteca”, lembrou Mussa à jornalista Camilla Maia, que o entrevistou por ocasião do lançamento de A primeira história do mundo, em maio último. “Aos 12 anos já tinha lido Machado de Assis e Eça de Queirós; aos 15, Oscar Wilde, Dostoiévski, Fernando Pessoa”, relembrou. E se o pai o aproximou da cultura clássica, a mãe lhe abriu portas para o universo popular: “O livro que mais me impactou na vida foi O assassinato de Roger Acroyd, da ficcionista inglesa: nele o narrador é o assassino, uma coisa quase borgiana”, explica para reforçar sua admiração por Jorge Luís Borges e por Bioy Casares, autores de eleição. 
 
Começou a vida universitária no curso de Matemática; depois passou ao de Letras. Essa dualidade de interesses talvez explique os esquemas bem planejados de seus romances, como O movimento pendular, O trono da Rainha Jinga, O senhor do lado esquerdo.
 
Considerado por colegas um dos escritores mais inteligentes e cultos do país, tem trabalho consistente como filólogo e linguista. Seu estudo sobre a influência das línguas africanas no português é referência. Autodidata em árabe, suali e outras línguas africanas, vem mergulhando no universo das seitas de África aclimatadas no solo brasileiro. Sua relação com a religiosidade é marcada pelo interesse no mito, assunto presente de forma marcante na sua literatura. Também transita muito bem pelo universo dos sambas-enredos, que já historiou. 
 
Descontraído, alegre, sedutor e irreverente, diz que escrever é um prazer e que seus livros têm esquemas bem planejados e lógicos. Com tantas qualidades, seria natural o reconhecimento, que já chegou na forma de dois prêmios importantes: o Machado de Assis e o APCA. (SM)
 
 
Livro
 
Título:  A primeira história do mundo
Autor: Alberto Mussa 
Editora: Record
Preço: R$35,00
 
 
Ubiratan Brasil, jornalista

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