Paternal

Por: Eny Miranda

260080
“Quem me leva adormecida
por dentro do campo fresco,
quando as estrelas e os grilos
palpitam ao mesmo tempo?”
 
Cecília Meireles
in Passeio
 
 
Navegava em direção à ilha dos sonhos. As águas flutuavam em si mesmas, pele sobre entranhas, e marulhavam segredos indecifráveis. Nelas, eu boiava: pluma silenciosa.
 
Então, veio aquela brisa e me fez balançar, leve, leve... Podia senti-la me tocando os ombros, convidando a pluma a erguer-se; chamando-me com seu canto, que ecoava nas águas. Era suave a voz da brisa, vinda de muito longe, me embalando... e quase me erguendo.
 
E eu dormia, ao som que se refazia em ecos, e ao vaivém, contínuo e delicado, da superfície macia. Dormiam o céu, a noite, as estrelas, que surgiam, piscando, aclarando-apagando... águas e sonhos.
 
Havia lua?
Talvez...
 
Havia a brisa, agora só a brisa, adensando-se, e me tocando mais forte, como se criasse mãos, ainda leves mas decididas a me tirarem dali. Mãos que me pareceram, então, bem familiares, tanto quanto a voz, insistente, e já muito próxima, trazendo-me, finalmente, à vigília.
 
Dois olhos me fitavam, quando abri os meus. Uma luz tênue, amarelada, vinha do corredor. Papai estava ali, à minha frente, meio sonho, meio realidade; meio quebra de encantamento, meio promessa de novidades. Chamava-me a ir com ele. Mas parecia tão noite ainda, o que significava cedo para eu acordar.
 
- Venha, disse-me, venha ver! Está na hora!
 

“Quem me leva adormecida
sobre o perfume das plantas,
quando, no fundo dos rios,
a água é nova a cada instante?”
 
 
Levantei-me e segui-o, confiante.
 
No quintal, não havia estrelas visíveis, só a lua, enorme.
 
Caminhamos poucos metros, em silêncio. Audíveis, apenas, o meu coração, saltando no peito (papai era um sábio, e dele sempre esperava as maiores descobertas, as melhores surpresas), e os nossos passos, rítmicos, no chão batido e varrido.
 
 
“Quem me leva adormecida
pelas dunas, pelas nuvens,
com este som inesquecível
do pensamento no escuro?”
 
 
Não demorou para que os visse, brilhando, à luz farta que anima os luares da infância.
 
Não me lembro de quantos eram. Lembro-me apenas das rachaduras nas cascas, seguidas dos buraquinhos, que se faziam às bicadas vindas de dentro.
 
Lembro-me bem das criaturinhas frágeis, envoltas em substância viscosa, gemas vivas, pedacinhos de ouro maleável, lutando, tentando se livrar dos duros invólucros e acordar para a vida. (Lembro-me da enorme vontade de ajudá-los a se desprenderem daquelas carapaças, grudadas nos corpinhos, quase a lhes arrancarem a pele).
 
Lembro-me também de seus passinhos, miúdos e confiantes, a seguirem - imediatamente depois - a mamãe-pata até o laguinho, construído para eles, no fundo de nosso quintal. E da água, pele sobre entranhas, a recebê-los, marulhando segredos indecifráveis. Nelas, eles boiavam: plumas silenciosas.
 
Lembro-me da brisa que os fez balançar, leves, leves... chamando-os a se erguerem. E do som que se refazia em ecos ao vaivém, contínuo e delicado, da superfície macia.
 
Havia lua?
Sim, havia!
 
Havia luz. A luz de duas verdades, presentes no momento da vinda à vigília: o milagroso e o corriqueiro, que se fazem e se refazem, no que fica e no que passa; que se imbricam e se confundem; que se fecham, em círculo de amor e confiança, e que eu, privilegiada, fui convidada a viver, por mãos, sabedoria e desvelo de um homem sensível e amoroso.
 
Agora, uma voz longínqua no tempo me diz, em palavra única, e muito clara, trazida pelo vento da saudade, “quem me leva adormecida / por dentro do campo fresco, / quando as estrelas e os grilos / palpitam ao mesmo tempo”.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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