Mais uma do Tiro-de-Guerra

Por: Everton de Paula

TG 02-018, soldado nº 87!
 
Quantas vezes, em posição de continência, disse essa frase em voz alta e firme, diante do sargento de minha companhia, nos idos 1969, na sede que ainda resiste em permanecer ali perto da Capelinha.
 
Eu percebi que o ano não iria ser nada fácil quando, logo em março, nas primeiras reuniões com o sargento, este perguntou, berrando num microfone, para mais de trezentos recos de cabeça raspada, que ele só estava vendo à sua frente menininhas tremendo de sustinho. A ofensa doía, mas nem um pio se ouvia entre a rapaziada. Falou, falou, ameaçou e depois perguntou:
 
- Muito bem, agora eu preciso saber de uma coisa: quem dentre vocês toca piano?
 
A pergunta mexeu comigo. Eu já estudava piano no conservatório. Talvez iria haver alguma solenidade e precisavam de um atirador que tocasse o instrumento. Ingênuo como um pato, levantei a mão. Era o único ali que tocava piano. O sargento berrou mais uma vez:
 
- Ótimo, soldado, parabéns. Você acaba de ser escalado para limpar as privadas!
 
Ninguém ousou rir, mas que gostaram, ah, disso gostaram.
 
Mas o pateta aqui não iria ficar só nessa trapalhada. Quando surgiu a oportunidade de um curso em Ribeirão Preto para formação de cabos, pensei: “Está aí uma ótima ideia: com a patente de cabo, vou ter regalias.” Fiz o curso. Eu e mais dez idiotas. A partir do momento em que colocaram a divisa nas laterais do braço do uniforme, ficávamos de plantão de dez em dez dias, ao passo que os outros soldados rasos cumpriam o mesmo plantão de dois em dois meses. Uma maravilha!
 
Sargento Vilhagra, misto de tapuia, bronco, sádico e gorila, magro e alto como um bambu, bigodes à Bienvenido Granda, comandava nosso pelotão composto por cem atiradores.
 
Diariamente, ao longo de um ano que se arrastava pelo tempo como nos arrastávamos feito cobras pelo chão, ali estávamos das 5 às 7 horas, testemunhando o acordar sonolento da cidade.
 
Não conseguia entender como é que estavam nos preparando para a guerra, se previsão de guerra não havia; ao contrário, o país, embora sob o governo revolucionário de Garrastazu Médici (o prefeito da cidade era o dr. Lancha), vivia as pré-alegrias de uma Copa do Mundo, que seria realizada no México, ano seguinte, com Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Carlos Alberto... E mais: subir em árvores cantando a Canção do Expedicionário às 5 horas da madrugada parecia-me mais um caso de sadismo de caserna que outro intento.
 
Um dia, tínhamos acabado de fazer uma marcha de trinta quilômetros em tempo recorde, carregando fuzil e mochila. O sargento Vilhagra ordenou que nos postássemos em formação diante da fachada principal de onde é hoje o recinto da exposição de gado. Elogiou o feito e, na melhor tradição dos tiros-de-guerra, anunciou: “Pelotão, vamos repetir essa marcha!”
 
Exaustos, exauridos, molambos em pé, não queríamos acreditar no que aquele morcegão estava falando. Talvez eu tenha me enganado, mas juro que ouvi, atrás de mim, alguém rezando uma ave-Maria. Ao lado, outro se lamentava “Minha santa mãezinha!” Verdadeira tortura.
 
Súbito, o sargento deu-nos as costas, mãos para trás. E lembrando 007, virou-se repentinamente e gritou, apontando o dedo indicador para o pelotão, lembrando muito o tio Sam convocando rapazes para a Segunda Guerra Mundial: 
 
- Se algum soldado acha que não é capaz de repetir a marcha, que dê um passo para frente!
 
O pelotão inteiro adiantou-se com exceção de um soldado. O sargento estremeceu, mas recobrou-se a tempo de felicitar o único voluntário pela fibra e coragem de mostrar-se pronto a marchar mais trinta quilômetros.
 
- Mais trinta quilômetros?, balbuciou o pobre rapaz, atordoado Meu sargento, meu corpo está endurecido, eu não sou capaz nem de dar um passo à frente!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

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