Túnel do tempo

Por: Maria Luiza Salomão

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O filme Questão de Tempo é quase uma fábula. Os homens da família de Tim, o protagonista, têm uma habilidade, transmitida de geração a geração, de voltar no tempo e alterar uma ação no passado, mas apenas uma ação que experienciaram, um dia, em um lugar determinado. Basta fechar os punhos, em um quarto escuro, visualizar o lugar e o tempo da situação experienciada e os homens (a partir dos 21 anos) refazem a sua história. 
 
Um filme leve, divertido, com humor britânico, e que pode dar boa conversa. É verossímil: homens, em geral, agem, e são focados em objetivos, metas. Normalmente, quando insatisfeitos com seu desempenho, querem refazer a ação, não conversar sobre ela. 
 
Como as mulheres fariam se fizessem essas viagens ao passado? Agiriam como os homens da família de Tim? Identificariam o ponto da falha no desempenho, o que poderia ou precisaria ser modificado, para atingir seus objetivos? Conheceriam a fundo os seus objetivos? Não pude deixar de pensar nisso, ao assistir ao filme. Parênteses reflexivo, à parte.
 
A mãe de Tim é descrita por ele como uma mulher-macho chamada Mary. Fazendo graça, Tim diz que sua mãe poderia se chamar Bernard. Há sempre um personagem impopular chamado Bernard nos roteiros do diretor e roteirista Curtis. Dizem que ele teve uma namorada no colegial que o abandonou por “um tal de Bernard”. 
 
NO filme, os homens são intuitivos, e reconhecem seus desejos. Aprendem a reparar o mal feito, a aprender com a experiência nas viagens ao passado; refazem sua história. Interessados em descobrir o que não funcionou, e disponíveis para demudar, e, sem saber o que a alteração irá provocar no sentido dos acontecimentos, já que o pai de Tim o avisou: “a vida é uma caixa de surpresas”. 
 
Ser capaz, na vida real, de detectar falhas, e desejos, é caminho andado: a mágica pode ocorrer. Se, ainda, houver esforço para superação, andamos mais da metade do caminho. 
 
Entramos, a cada experiência, no labiríntico metrô da alma, onde cruzam linhas superpostas de passados: desejos contraditórios; capacidades variáveis, segundo as circunstâncias, de nos manter vivos quando em turbulência emocional; mutável atenção e cuidado/descuido ao que e a quem nos faz bem; repúdio variante, segundo a percepção “da hora”, ao que nos derruba. Linhas cruzadas e interferentes: como não haver tráfego confuso na alma, eternamente aprendiz? 
 
Quando o pai conta para Tim sobre a genética masculina familiar, este quer saber o que seus ancestrais fizeram com o “dom” de voltar ao passado. O avô quis dinheiro e acabou arruinado. O pai de Tim optou por ler muito; leu Dickens várias vezes. Tim define rapidamente a que quer se dedicar: quer uma namorada. Relacionar-se bem com alguém, intimamente, é uma espécie de loteria afetiva. O protagonista aprende que a fabulosa dotação não faz com que alguém passe a gostar dele, não importa o quanto altere o seu desempenho. E nem que esse “dom” resolve todos os seus problemas, podendo até ser usado de maneira perigosa, alterando situações benéficas, como efeito colateral.
 
Refleti, estimulada pelo filme, sobre os laços únicos e precisos que acontecem entre um filho e seu pai, uma filha e sua mãe, um filho e sua mãe, uma filha e seu pai. Filho é um acaso imperdível (na disputa de milhões de espermatozóides para atingir o óvulo) entre genitor e criatura, irrepetível. Há responsabilidade mútua pelos laços entre quem gerou e quem foi gerado. Tim aprenderá sobre esses profundos laços. A grande viagem ao passado é a do pai e filho, na saga familiar, em laços estreitados de gratidão e ternura. Comemoremos novamente o Dia dos Pais! 
 
Tim aprende a usar suas “viagens” para se manter atento ao que experiencia, para reafirmar o seu amor à vida, a cada bocadinho dela. 
 
Todos podem aprender com o que vivem se houver atenção redobrada às experiências vividas. Que delícia poder passar a limpo as vivências, como na fábula do filme, rica metáfora para o “carpe diem”. Mas, a única forma, humana e possível, de “passar a limpo” uma experiência é o sentir/pensar. 
 
O elenco é excelente: uma espontaneidade deliciosa em todos os atores. A música-tema instrumental sugere passos que titubeiam, as notas vão e voltam em acordes no piano, suaves; vozes apenas sussurradas, em deliciosas canções. Tudo emana delicadeza: música, fotografia, diálogos, a trama. 
 
Tim aprende a ser cuidadoso com as palavras. Conversar é ato delicado, milagroso, e humano. Ao narrar, escutar, reformular, narrar de outra maneira, alteramos o nosso passado e presente: viagens possíveis. Saímos do filme com a alma aconchegada.
 
No Cinema & Psicanálise, em seis anos sucessivos, temos refletido sobre questões sementeiras. A cada novo encontro, viajamos juntos no tempo: a arte sempre propicia inesquecíveis viagens ao centro de nós mesmos. 
 
 
O DIRETOR
 
Richard Curtis. O diretor tem 57 anos, nasceu na Nova Zelândia, radicou-se em Londres aos 11 anos de idade. Formado, pela Oxford University, em Literatura e Língua Inglesa. Casado com Emma Freud , filha de Clement Freud (neto de Sigmund Freud), com quem tem quatro filhos. 
 
Roteirista de filmes de sucesso: Quatro casamentos e um funeral, 1994; Notting Hill, 1999. Co-roteirista de Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg, 2011. Escreveu e dirigiu Simplesmente amor, 2003. Em 2003, Curtis foi listado pelo The Observer, como uma das 50 pessoas mais engraçadas da comédia britânica.
 
Questão de Tempo, 2013, escrito e dirigido por Curtis, é uma comédia dramática, ou comédia romântica, “para se assistir com a família toda na sala”, disse o diretor. Ainda: “Penso que as pessoas que têm vida boa devem espalhar um pouco do que vivem para quem está a sua volta”. “Se você escreve sobre um soldado que estupra uma mulher grávida e a mata com um tiro na cabeça, isso é chamado de realidade, embora essa situação possa não ter acontecido na história da humanidade. E se você escreve sobre duas pessoas que se apaixonam, o que acontece um milhão de vezes por dia em volta do mundo, por uma razão ou outra, você é acusado de escrever sobre algo irreal e sentimental”. 
 
Curtis anunciou que Questão de Tempo talvez seja o seu último filme. Por que será? É um filme de grande delicadeza, aposta na bondade humana e acredita na força afetiva dos laços da família. Estará na contra-corrente da vida pós-moderna? 
 
 
Filme
 
Título:  Questão de Tempo
Diretor:Richard Curtis
Atores:Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy mais
Gênero: Romance
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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