Luz alta

Por: Janaina Leão

“Nas vias não iluminadas o condutor deve usar luz alta, exceto ao cruzar com outro veículo ou ao segui-lo;” Código de Trânsito Brasileiro.
 
Vamos brincar um pouco de analogia: “s.f. Relação, semelhança de uma coisa com outra: analogia de formas, de gostos. Filosofia. Analogias da experiência, princípios que governam a ligação entre os fenômenos, segundo Kant. Por analogia, de acordo com as relações que existam entre as coisas: raciocinar por analogia.
 
Quando criança mamãe ensinou-nos a oração: Anjinho da minha guarda, minha doce companhia, não me abandones nunca, nem de noite nem de dia. Ilumine, proteja e ampare toda minha família e a todos os que necessitarem. 
 
Eu gravei aquilo e ritualmente, dos três até uns 12 anos nós rezávamos juntas, diariamente antes de dormir, e ela dar nosso beijo de boa noite/molhado- amoroso, na testa. Minha irmã na cama da direita e eu na cama da esquerda.
 
Minha avó ensinou-nos a rezar o Pai Nosso com a seguinte técnica: ela botava balas de doce-de-leite na gaveta, e dizia pra gente rezar ajoelhadas em frente a ela que o “Santinho” iria responder. Esta surpresa chegava após a oração, quando abríamos a gaveta e nos deparávamos com o milagre da multiplicação das balas. 
 
Fiz minha primeira comunhão de short e camiseta branca. A despeito dos olhares das minhas coleguinhas em seus vestidinhos e suas famílias alegres eu estava feliz em comungar com Deus. Isto se deu aos treze e depois... Dei continuidade à minha vida, sem fazer  Crisma e sacramentar os outros requisitos necessários ao “bom católico”. Vivi intensamente, cresci, entrei no judô (ganhei e perdi lutas), conheci cidades, namorei, viajei pela primeira vez sozinha, para jogar basquete, para lutar, e para entender um ensinamento: meus pais não seriam eternos eu teria que encarar um amadurecimento muito sofrido. 
 
Soltei a mão da minha mãe. Por tempos andei sozinha, até arrumar uma verdadeira legião de “amigos”. 
 
Deus esteve de lado: afinal de contas, em time que está “ganhando” não se mexe. Precisei sofrer para lembrar, e Ele pacientemente me carregou nos momentos em que eu não conseguia me erguer do chão.
 
Depois de me levantar, deixei-o de lado novamente e no momento em que mais precisei pela centésima vez Ele esteve lá, me olhando docemente, em sua santa paciência e amor por nós, seus filhos. 
 
Em Sampa - fase concreta da adolescência- conheci uma igreja Evangélica, e num momento de desespero-alegre/aliviante levantei a mão no meio da Unção e me entreguei para Jesus. 
 
Sinto que necessitei muito de aprovação alheia. Eu queria agradar aqueles que tão gentilmente me levaram aos seus templos. Eu precisava agradecer de alguma forma. Levantei-me mais uma vez e botei Deus de lado até que, há três anos, raspei todo meu cabelo e entreguei minha vaidade a Yemanjá, lá no mar de Parati, Angra dos Reis, Trindade... BR 101: missão cumprida.
 
 Resolvi, daquele dia em diante, que iria renascer/religar com um Poder Superior e eu iria descobrir seu nome. Hoje sei que ele tem vários, mas na minha concepção é um só: Deus, Oxalá, Jeová, Buda, Natureza... Diabo se Religarem: cumprirão seu papel. 
 
Dessa viagem em diante, conheci Sacerdotisas da Antiga Religião e seus remédios e banhos milagrosos, todos eles provindos da terra. Todos eles dependentes da Fé. 
 
Pude também entender que alguns de meus conhecidos que se diziam Satanistas, eram mais amorosos e gentis que quaisquer outros estampados de templos. E que outros, agnósticos, não comiam carne por compaixão aos animais. Percebi que alguns homens são seus Próprios Deuses. 
 
Tempos depois me tornei Espiritualista: acreditava na vida após a morte, ainda não mudei de opinião. E essa filosofia me levou ao Kardecismo, que pratico diariamente, junto da meditação budista, das orações católicas, dos louvores evangélicos, dos banhos/incensos da Antiga Tradição, e dos toques/pontos de Umbanda.
 
Sou de Deus. Não porque sou da sua “religião”, mas por que bebemos da mesma fonte.
 
 Alimento-me da verdade, da caridade, da tolerância (inclusive religiosa), da fonte do amor, que Jesus Cristo (O Messias do Ocidente) explicou tão bem: Amai-vos uns aos Outros como eu vos amei. Essa verdade está escrita nas estrelas, está guardada a sete chaves, e se abrirá ao coração de quem buscar.
 
Tive que doer para lembrar D’Ele. 
 
Tantas e tantas vezes que “só por hoje”, não quero abandoná-lo. Tampouco quero sob luz alta cegar os olhos dos passantes com meus dizeres que podem atravessar retinas mais frágeis. É uma delicadeza, é educado não tentar impor a alguém algo que você mesmo levou um deserto para vislumbrar. Todos nós temos desejos, e o de compartilhar uma alegria às vezes predomina, assim como o de impor uma verdade que não passa nem mesmo pelo crivo da própria razão e coração.
 
 Qual é a minha religião?!
 
É Deus, é amor, é caridade. E isso, eu não discuto mesmo.
 
 
Janaina Leão, psicóloga

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