Ossos do ofício

Por: Chiachiri Filho

A morte do Governador Eduardo Campos, neto do lendário Miguel Arraes, foi, sem dúvida, uma tragédia. Uma tragédia inesperada, imprevista e jamais desejada.  O Brasil perdeu uma nova liderança política que se despontava e que havia sido amplamente aprovada  na governança do Estado de Pernambuco.Os lamentos e as manifestações de pezar pelo falecimento de Eduardo surgiram nos mais variados setores da política nacional. Opositores e partidários uniram-se para prantear o ilustre desaparecido e tantos foram os elogios a ele dirigidos que nos levaram a crer, caso tivesse sobrevivido, que ele era o mais apto e preparado para assumir a Presidência do Brasil. Foi uma pena que esse reconhecimento veio um pouco  tarde demais.
 
A vida de um político, caro leitor, não é tão “doce” quanto possa parecer.  Suas atividades não se limitam às conversas, aos conchavos, às viagens, às articulações, aos discursos. A vida do político tem suas amarguras e os seus perigos. E essas amarguras e perigos começam já na campanha eleitoral. A campanha é estafante, estenuante.É uma coisa de doido. O político não tem parada: ora ele está  aqui, ora ali.  A busca do voto é incessante e interminável. Busca-o nas favelas, nos bairros grã-finos, nas associações de classe,  times de futebol, sindicatos, etc e etc. Em sua batalha eleitoral, o político encontra pela frente muita gente boa, gente do povo sofrido e esperançoso. Por outro lado, encontra também  muito osso duro de roer, muita gente chata, interesseira , malandra e de mau caráter.
 
Em minha campanha para Deputado Federal ( só para dar um exemplo )  deparei-me, no terminal rodoviário da cidade, com um pernambucano que queria, por toda lei, que eu votasse e trabalhasse para o seu candidato, o conterrâneo Lula. Foi um custo para me livrar do chato. Numa outra campanha da qual eu participava, lá pelas bandas da Santa Maria do Carmo, um eleitor que me conhecia e que se encontrava, além de doido, completamente bêbado, queria que eu lesse o que estava escrito em sua carteira de trabalho. Quando eu lhe disse que tinha perdido a visão, o eleitor pegou em meus ombros, começou a chacoalhá-los com uma certa violência e gritar:
 
- Isso não, não e não! Você não está cego coisa nenhuma. Você está com demagogia e demagogia tem limites. 
 
Ainda bem que um grupo de assessores percebeu o que estava ocorrendo e me separou  das mãos e do bafo daquele insano eleitor.
 
É, meu prezado leitor! Todas as profissões têm as suas mazelas. O político, apesar do eterno sorriso e aparência de bom humor, também é um sofredor.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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