Santa ladainha! (a brabeza de um sujeito invocado)

Por: Cristiane Ávila Paulo

Lá estava ele, aguardando o início da celebração do batismo do sobrinho. Enquanto esperava, lembrou-se do fatídico episódio: depois de anos ensaiando e num momento de preocupações, o moço criado no catolicismo resolveu buscar consolo na igreja e acabou se deparando com uma missa de corpo presente, lotada de fiéis que queriam se despedir do pároco da matriz. Memórias à parte, começou o batizado e logo o padre anunciou:
 
- Vamos agora passar para aquela ladainha, em que rogamos aos santos por proteção. Santo Antônio, rogai por nós!
 
Ato contínuo, Haroldo cutucou a esposa, com os olhos arregalados:
 
- Nicota, você ouviu isso? Ele falou LA-DA-I-NHA! 
 
“São Paulo, rogai por nós! Santa Terezinha, rogai por nós! Santo Expedito, rogai por nós!”
 
A esposa, habituada a fazer leitura labial dos comentários do amado, sussurrou:
 
- Sim, isso é uma ladainha. 
 
“São Pedro, rogai por nós! Santa Bárbara, rogai por nós!”
 
Haroldo, que não conseguia processar o que ouvira, prestava atenção na reza, estupefato com a atitude insensata do jovem padre. “São Judas Tadeu, rogai por nós!” Diante da confusão do marido, Nicota, que havia tido um mal-estar o dia todo e controlava as crianças à distância, esforçava-se para conter o riso e não atrapalhar a cerimônia. 
 
“Santa Luzia, rogai por nós! Santo Inácio, rogai por nós!”
 
 Dona Idália, vendo a jovem tremendo e com a mão na boca, desesperou-se e segurou seu braço, preocupada:
 
- Filha, você precisa de alguma coisa? Está passando mal?
 
 “Santa Efigênia, rogai por nós!”
 
Nicota apenas gesticulou, mostrando que estava tudo bem. Naquele momento, Netinho passou voando pelo corredor, dirigindo-se à porta da capela, e os pais correram para alcançar o filho de apenas três anos. Já do lado de fora, o indignado aproveitou a oportunidade para desabafar com a esposa:
 
- Eu não acredito que aquele padre teve a coragem de fazer isso! Quanta falta de respeito! Se fosse o batizado do meu filho, eu teria me levantado na hora e reclamado. Quem ele acha que é para chamar uma oração de ladainha?!
 
- Haroldinho, querendo dar uma de justiceiro até com um padre?! Segura os ânimos... Por acaso você não sabe o que é ladainha?
 
- Claro que sei, eu não sou bobo! Ladainha tem o sentido que eu conheço, ué, de conversa chata, lengalenga. Onde já se viu um padre dizer uma coisa dessas...
 
E voltou para a cerimônia, duvidando da mulher, maluca, que dissera que ladainha nada mais era que uma oração repetitiva, justamente como aquela. O inconformismo persistiu até o final do batizado, quando Haroldo entrou no carro, ligou o tablet e leu os significados do verbete. 
 
Como é feito São Tomé, o revoltado precisou ver para crer. Deu o típico sorrisinho amarelo e pensou: “ainda bem que o batizado não era de um filho meu!”.
 
Pobre Haroldo, parece que precisa mesmo de uma reciclagem religiosa ou de um gerenciamento de raiva... Há não muito tempo, ao ouvir Nicota entoar a oração ‘Maria, passa na frente’, esbravejou antes que ela terminasse a frase:
 
_Mas é folgada essa Maria, hein! Não tem educação não?
 
 
Cristiane Ávila Paulo, advogada

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