Silêncios

Por: Maria Luiza Salomão

Nenhum silêncio é igual a outro. Tudo se cala na noite do não dito. Do silêncio, um deus, faz-se a palavra sábia.
 
Silêncio é hiato entre sons. Um pequenino respiro, uma breve suspensão. Se os sons se emendassem sem parada, restaríamos imersos em uma massa ruidosa desagradável. Sem a brecha entre vozes, a algaravia, cacofonia, nenhum diálogo. 
 
Quando fiz o curso de Terapia Familiar Sistêmica, a professora indicou o livro de um norueguês. Ele iniciou o livro sobre a análise de famílias explicando a geopolítica da Noruega, que, etimologicamente, significa “caminho para o Norte”. Na primeira página o mapa do país, com a descrição sobre os longos invernos, rigorosíssimos, que obrigam os habitantes nórdicos a longas caminhadas na neve, a sós, a viverem encerrados em suas casas. Não esqueci uma observação dele sobre os diálogos entre as pessoas em um grupo familiar. Quando um fala, o outro escuta, e quando ele encerra o que tem a dizer, o ouvinte aguarda algum tempo para permitir ao falante acrescentar algo, se quiser, e só então o ouvinte responde ao falante. 
 
Quando li essa observação pensei nas características únicas de uma cultura. Respeito ao pausar para sentir, para pensar, para compreender o falante, quando em lugar público, ou com quem não se tem intimidade, ou, ainda, quando há antagonismo, real ou fantasiado, entre falante e ouvinte. Diálogo demanda processamento silencioso, música feita interna e externamente. 
 
Silêncios garimpados colorem, cintilam sensações e sentimentos, permitem metamorfoses: há minérios entre as palavras. 
 
Quando medito, ouço mínimos movimentos, ouço as imagens. Ao aprofundar a minha sonda silenciosa, devagar, discrimino o zunzunzum: cantos de pássaros, o vento a perpassar as folhas, a minha respiração no seu ritmo próprio, o burburinho visceral do meu organismo que funciona à minha revelia. 
 
No meu ofício de psicanalista, ressôo visceral mente, na orquestração de vozes e sentidos e silêncios: em vagas ondas à procura de praias. Mãos, olhos, pele se tornam poros ouvintes, voltados para dentro e para fora. A boca fala em eco; a boca traduz o ouvido, o ouvido traduz a boca. Idosos, geralmente, são calados e, quando sábios, comungam fundas preces com quem lhes cerca, sem palavras.
 
Tudo no organismo anseia pausas e ritmos: alimentação, sono, evacuação, sexo. Sabedoria aguarda quem escuta as pausas, atenta aos ritmos: andaimes são os invisíveis silêncios que cimentam boas palavras, felizes gestos, ações de graças, eucaristias humanamente compartilhadas.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras