Sonhos

Por: Everton de Paula

Agrada-me a ideia de sonhar, de ir para cama, ficar quieto e, de repente, graças a uma espécie de golpe de mágica, entrar numa outra existência.
 
Quase ninguém aceita o sonho como uma parte integrante de cada um de nós. A maioria tende a encará-lo como se fosse um habitozinho irritante, algo como espirrar ou bocejar. “Que pode haver de especial num sonho? Por que ele seria importante?”, quase sempre dizem.
 
Jamais consegui compreender essa atitude. A vida dos meus sonhos não será talvez tão importante como as ações de minha vida real, mas para mim eles são importantes.
 
Quantas vezes sonhei com minha esposa e acabei mais apaixonado por ela! Quantas vezes, quando minhas filhas eram pequenas, sonhava com brincadeiras diferentes e, logo ao acordar, colocava-as em prática e elas se divertiam a valer! Quantas vezes um sonho revelou-me certos caminhos que percorri, depois, na realidade da vida, com relativo sucesso! Quantas vezes sonhei com situações que, mais tarde, iriam acontecer em minha vida real! Quantos avisos, quantos conselhos, quantas intuições, quantas indicações para se resolver um problema!
 
O sonho traz outras vantagens. Nele encontramos os mortos queridos e saudosos sorrindo, falando, mais jovens, felizes... E acordamos com uma sensação reconfortante de paz, de calma. Nos sonhos está o passado, às vezes todo fragmentado, mas outras vezes vem com o frescor de pétala nova. E é bem possível que neles também esteja o futuro, piscando um olho para nós.
 
Mas também há as aventuras, os perigos, o inexplicável. Alguns sonhos trazem grandes e intrincadas angústias – roupas que não entram em malas, ônibus que não se deixam apanhar, buracos sem fim em que caímos, telefones que não se deixam discar ou teclar, elevadores descontrolados, voos sobre campos, cidades e planícies (Deus, como eu sonho com voos; em grande parte dos meus sonhos, encontro-me voando por sobre cidades, lugares conhecidos, pessoas me acenando, algumas conhecidas...)
 
Há ainda um velho amor que ressurge com o mesmo frescor da juventude de então; densas florestas à porta do banheiro... E a sala de jantar, não se sabe como, de repente é o gabinete de leitura de alguma biblioteca.
 
Há instantes de desconsolo ou de terror  no mundo dos sonhos febris que são piores que qualquer coisa que jamais tenhamos sentido à luz do sol.
 
No entanto, essa outra vida tem seus interesses, suas satisfações e, em certas pausas admiráveis, um sereno esplendor ou um êxtase súbito, como vislumbres de uma forma de existência inteiramente desconhecida, que não podemos comparar a nada que tenhamos visto de olhos abertos.
 
Tolo ou sábio, terrível ou delicioso, o sonho é mais uma porção de experiência que nos é servida, um prêmio que recebemos nas trevas, mais uma fatia de vida, cortada de outra maneira e, pela qual, parece-me, jamais poderemos ser suficientemente gratos. 
 
Mark Twain exagerou na dose quando assim conceituou: “Nunca se afaste de seus sonhos. Porque se eles se forem, você continuará vivendo, mas terá deixado de existir.”  Óbvio, ele falava de outro sonho, aquele com o sentido de ideal, ou de um objetivo, uma meta a ser alcançada. O meu sonho é mais modesto, menos nobre, apenas um sonho enquanto dormimos.
 
Há esta outra do Machado de Assis em Dom Casmurro:
 
“- É pecado sonhar?
 
- Não, Capitu, nunca foi.
 
- Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
 
- Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer.”
 
Meu sonho é apenas um sonho, não um ideal ou uma filosofia de vida.
 
E por que apenas?
 
Porque ele existiu... E foi só seu! No mundo inteiro, em todas as gerações, em toda a história da humanidade, o seu sonho é só seu!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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