Preconceito

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Movidos por preconceito, diante de situação incomum para aquela realidade de costumes conservadores, julgaram-na e condenaram-na, impiedosamente. Soube que tinha quatro filhos, nascidos de relacionamentos diferentes. Considerada irresponsável, sem firmeza, imprudente e até promíscua para alguns, seus algozes não a julgaram com humanidade, não atentaram para o seu interior, para as razões do coração e nem para os sentimentos. Viúva jovem, o marido fora assassinado, vilmente, enquanto descansava em uma pausa do trabalho. Deixou-lhe uma criança pequena e acanhada pensão que minimizou a sua luta pela sobrevivência. A solidão doía e aquele amigo que a apoiou deu-lhe mais um filho, desaparecendo logo após. A este, ela amparou-o e cuidou com muito amor. Redobrava-se na árdua labuta em indústria de calçados. Crescida no campo, sem acesso a muitas informações, mudou-se para a cidade voraz. Mulher de beleza primaveril, de riso fácil, de bom trato, a vida era-lhe uma rotina que foi rompida quando saiu, uma única vez, para se entreter e, casualmente, encontrar um sedutor que, sentindo nela certa fragilidade momentânea, viria  a ser o pai do terceiro. Ele passou pela sua vida como um cometa flamejante. Alegre, confiante, ela não se abatera com infortúnios e reveses. Outra vez, iludida por um homem mais velho, com falas de esperança não cumpridas, nascera-lhe uma menina graciosa que a fez muito feliz. A história de sua vida é a história de suas emoções. A todos amou e só recebeu indiferença, espelhada em atitudes levianas. O marido lhe foi fiel, mas a deixou muito cedo. Soube encaminhar os quatro filhos, sozinha, enfrentando dificuldades materiais e emocionais, numa sociedade intolerante que se prima em valorizar aparências. Venceu, preferiu viver livre aceitando, com gosto, o carinho e mimos da família que ela bem merece.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras