Das Paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam

Por: Maria Fernanda Rodrigues

261646
O editor Marcelo Ferroni, vencedor do Premio São Paulo em 2011 por seu romance de estreia, Método Pratico da Guerrilha, não padeceu da síndrome do segundo romance. Isso porque antes de lançar seu livro que recria ficcionalmente os últimos dias de Che Guevara, premiado com R$ 200 mil e já traduzido para diversas línguas, ele tinha pronto o esboço de Das Paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam, lançado agora.
 
Claro, há a consciência de cobrança externa e a expectativa da recepção, mas o autor lida com essa ansiedade de uma forma bastante prática: escrevendo outro livro, que, diz, será diferente do segundo que, por sua vez, é diferente do primeiro. No entanto, ele vê neles uma unidade. “ As situações não são levadas muito a sério. Nos piores momentos sempre há algo de patético.”
 
Das Paredes, Meu Amor, Os Escravos nos Contemplam é um romance policial. A ideia surgiu quando a família foi passar um fim de semana numa fazenda em Bananal, em 2009, e o escritor se viu no meio de desconhecidos. Logo pensou em um crime de quarto fechado. Com Método Prático finalizado e um segundo romance sendo escrito, ele arquivou a ideia do policial.
 
Perto do lançamento do livro sobre Che Guevara, a história da fazenda voltou e ele teve o estalo de quem seria o narrador. “ Comecei a escrever como uma brincadeira para soltar um pouco da pressão que estava virando o outro livro. Fiz uma primeira versão descompromissada em dois meses”, conta. Foi quando abortou de vez o projeto anterior a se dedicou à nova trama.
 
O processo durou quase três anos e foram feitas cinco versões para esta história com um morto e 13 suspeitos. 
 
Na obra, um escritor na casa dos 30 anos ,e um pouco frustrado, se envolve com jovem garota rica que o leva para um fim de semana na fazenda da família de industriais. Lá, Humberto, um estranho no ninho, subitamente ignorado pela própria moça que o convidara e por suas irmãs, cunhados, primos e empregadas, aos quais sequer é apresentado, se vê envolvido numa trama de assassinato (o patriarca está morto) e tenta desvendar o mistério que ronda o casarão antigo e a família de novos e fúteis ricos.
 
Humberto está perdido e o autor quis que o leitor sentisse o mesmo. Ninguém facilita para ele, e ele não facilita para ninguém. O leitor vai seguindo os diálogos entrecortados, quase como quem os ouvisse; vai vendo as pessoas representarem seus papéis; e vai seguindo a narrativa dele. Aliás, toda a primeira parte , narrada em primeira pessoas, consiste na narrativa dele. Quando o crime acontece, é como se o narrador-personagem tivesse sofrido um. “ E ele resolve esse choque saindo da narrativa , que passa a ser em terceira pessoa”, explica o autor. Mas depois retoma as rédeas da história, óbvio, porque a verossimilhança ainda é uma das exigências do gênero de ficção chamado romance. 
 
Ferroni conta que usou a trama para falar, também, de literatura “Nas quase 24 horas, tempo de duração da ação, muita coisa tradicional de literatura acontece com ele. Tem o crime de quarto fechado, uma sessão de mesa branca, ele desce ao inferno, participa de um duelo. Todos os chavões. Achei que eu podia me divertir com isso.” Que o leitor se diverte, é fato. 
 
O livro deve muito a Raymond Chandler e Ian Fleming, autores de eleição. No processo, leu também os clássicos ( Agatha Christie, John Dickson Carr, Ellery Queen, etc.) e um livro excêntrico,com 1.280 casos, do mesmo tipo do que estava tentando criar. Procurou seguir algumas regras básicas do policial como não trapacear com o leitor e, ao contrário, dar pistas para que ele possa descobrir antes o que a narrativa ensaia contar apenas no epílogo.
 
Marcelo Ferroni lança este segundo romance às vésperas de completar 40 anos. Editor da Alfaguara, ele conta que quis fazer um livro deferente daqueles manuscritos que recebe diariamente e optou por uma base comercial mas diz que se fosse para ter escrito um livro só policial comercial, o que não o interessava, teria criado diálogos mais claros e situações mais simples. “ Fico tão preso ao trabalho que quando vou escrever tenho que sair de tudo isso e escrever só pelo prazer que a escrita me dá.” 
 
Este prazer pela palavra bem escolhida e colocada, seu poder e suas combinações, as entrelinhas e o explícito, é que diferencia de fato o que se constrói como literatura e o que constitui mero entretenimento.(SM)
 
 
PERFECCIONISTA
Marcelo Ferroni nasceu em São Paulo em 1974. Formou-se em jornalismo pela PUC-SP e trabalhou, como repórter de ciência, no jornal Folha de São Paulo e nas revistas Galileu e Istoé. A partir de 2004, passou a atuar na área de produção de livros e até 2006, foi editor de literatura e não-ficção na Globo Livros. Há oito anos é editor do importante selo Alfaguara, da Editora Objetiva, responsável por títulos de literatura nacional e estrangeira. Mora atualmente no Rio de Janeiro, com a mulher, também editora, Martha Ribas, e o filho pequeno. 
 
Seu primeiro livro, Método Prático da Guerrilha é um romance sobre ambição e loucura. Parte de fatos reais- a última expedição revolucionária de Che Guevara- mas subverte totalmente a história documentada, recriando o protagonista e refazendo sua trajetória. Em entrevista a Márcio Vassallo,o escritor revela seu surpreendente método de construção romanesca, que consiste em escrever várias versões para a mesma história, sendo que a última é lida em voz alta, para sentir a sonoridade de cada frase. É perfeccionista, embora não assumido.
 
 Indagado pelo jornalista sobre os três erros fatais de um ficcionista, enumera: 1. Não reescrever, achar que a primeira versão é a final. 2. Acreditar que fazer contatos importantes vai garantir o lugar como (bom) escritor. 3. Não reescrever de novo. Estes mesmos erros relacionados ao editor seriam: 1.Julgar um livro antes de lê-lo. 2. Não ser capaz de mudar de opinião conforme a leitura avança. 3. Não ler o manuscrito até o final, já que muitas vezes uma boa história descamba nas últimas páginas. 
 
Para Ferroni, um escritor “sempre coloca a própria vida nos livros, por mais fantásticas que as histórias sejam”. Entre o premiado Método Prático da Guerrilha e Das paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam, resenhado por Maria Fernanda Rodrigues, publicou O Dia dos Mortos, uma coletânea de crônicas e contos. 
 
 
FILME
 
Título:  Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam
Autor: Marcelo Ferroni
Páginas: 272
Editora:  Compnhia das Letras
 
 
Maria Fernanda Rodrigues, jornalista

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras