posta restante

Por: Mirto Felipim

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não poderia ter te amado tanto. mas amei. não apenas como uma perspectiva interminável ou algo concretamente definitivo, mas também como algo fátuo, provisório e terrivelmente perpétuo. tive tantas vezes teu corpo, que as primeiras tentativas, medrosas e incompletas, pareceram tão distantes, que cheguei a esquecê-las. mas, se os momentos foram extenuantes e a loucura muito além da razão, paro agora, mudo e contrito, para julgar o que fiz, ou não fiz.
 
meu coração não floresce
pois por cada alegria que bate,
outra tristeza aparece.
 
julgar nosso ato, por mim mesmo, é risível. não acredito na moral plena do ser humano. todavia preciso avaliar se o teu lado precisará ou não dessa moral. assim, me pego a analisar as consequências na moral alheia, e, dessa forma, cedo ao meu conceito de que se preocupar com a moral alheia é, também, admitir a própria preocupação moral.
 
você não me conhece inteiro
eu não te pertenço todo
você nunca me entenderia
e eu jamais te explicaria.
 
a paixão louca de estarmos envolvidos duplamente, no segredo e na loucura, é o que me corrompe. queria tudo completamente claro, límpido, com todo o peso das consequências. contudo, após o ato, sinto-me sujo; na distância, sou fraco e, no momento que te antecede, sou escravo. mastigo depois meus remorsos, por achar que corrompo, justifico antes todas as minhas fraquezas com a ilusão de amar. acho-te vítima, porque sou poderoso; acho-te armadilha, porque sou frágil.
 
andamos por tantos caminhos
perdidos nos resgatamos
para hoje estarmos sozinhos
no ponto em que começamos.
 
nossos ardis primeiros, com gosto de travessuras, atravessaram nossos sentidos, tingiram nossa prudência e tornaram-se armas, que aos dois fere e aos dois alivia como um chicote de duplo açoite, a castigar quem provoca e a dilacerar quem o manuseia.
quis proteger-te em todos os momentos. preocupei-me com todas as consequências em tua direção. penso, hoje, em romper com tudo e quero chorar por isso. nunca fui de fácil renúncia, mas, também, não quero atingir-te nem ser alvo. para você seria terrível, para mim definitivo. você tem a vida inteira e eu, tendo-a já inteira, não posso viver da sua.
 
quero ser teu escravo
mas não quero te prender
ou quero te prender
mas não quero ser teu escravo
 
se continuar pensando em você, terei de varrer minha vida de toda lucidez e entregar-me de vez ao delírio. você me faz mal, porque me alucina e queima na chama da insensatez. perto de você inexiste minha razão e meu frágil controle se perde. eu não gosto de me sentir inseguro, mas você me arrasta e me condena às dúvidas. massacra-me com tua inocência, queimando-me com teu veneno. tua adulta caricatura arrasa minha convicção de que estou no controle. você não presta e não sabe disso. você me destrói, sepulta e, depois, me ressuscita, sem mesmo se dar conta do que faz, do que me faz. e isso me arrebenta. 
 
não posso seguir teu rastro
quando você me alucina
pois quanto mais sou carrasco
mais você me domina.
 
 
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.

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