A dimensão temporal

Por: Maria Luiza Salomão

Quando acordo, olhos abertos debaixo das cobertas, ouço o som das ruas, dos passarinhos, dos ruídos da casa – dou-me um tempo. Tábuas velhas do assoalho estalam, o vento balança as janelas, os cachorros latem. 
 
Cinco horas da manhã: passa um carro, trinta segundos, outro carro, quase um minuto, mais outro... Seis horas, poucos segundos separam o som de um carro do outro. Seis e meia, sem intervalos sonoros, os carros são ondas sonoras, ribombos de ondas do mar. Passa uma moto roncando alto, um escapamento desesperado, e o som vai crescendo como a manhã. Recordo sonhos, relembro o primeiro compromisso - a que horas ficou acordado e com quem. 
 
Toda manhã  - ultimamente - recapitulo um trecho da minha linha de tempo. Qual a minha idade, por exemplo, quando entrei na USP em Ribeirão Preto, e qual era a idade, então, dos meus pais, dos meus avós, com quem convivi o tempo do meu curso de Psicologia. 
 
Quando se é jovem, “velhos” não têm idade: são velhos; não se tem experiência acumulada para dar dimensão ao tempo; seis meses para um adolescente é uma eternidade. Quando jovens, em geral, atentamos para  espaços, “onde estamos”; para as trajetórias, “para onde vamos”; as pessoas são “concretas”, têm nomes e funções definidas.  
 
Tempo é experiência, hoje: duração, intensidade, colorido, definição, valores. Cada situação define o tempo das prioridades, dos espaços, das funções. Maturidade implica uma relação com o Tempo, atribuindo um antes, um durante, um depois, a cada experiência bem (ou mal) vivida.
 
Odisseia é um livro paradigmático para a literatura ocidental. Ulisses (Odisseu) parte de Ítaca, vive experiências, volta à Ítaca. Quem deseja voltar à origem, ao tempo e ao espaço do nascimento?
 
Graças à Penélope, e ao seu esforço para retornar à Ítaca, Odisseu reencontra seu tempo perdido no espaço mantido pela fiel mulher, zelosa, que o reconhece, depois de longo espaço de tempo. Voltar à origem é estranhamento: somos outros, o espaço é outro, perdido, e o tempo mais perdido ainda: passou.
 
Guardamos, cada qual a sua Ítaca, em outra esfera.  Vovó e vovô morreram, meu pai morreu. A casa em Ribeirão Preto é de estranhos, a pracinha defronte é outra, a vizinhança e a cidade não são a minha Ítaca de outrora. 
 
Eu sou Penélope, a tecer e desfazer meu tapete de lembranças, bordando a jovem que eu era, assim como meus pais e avós, as cidades e amigos de tempos diversos, originais. A cumprir meu ciclo - Uróboro. 
 
Agora sei o peso, a temperatura, a espessura, a textura, o sabor, a sensível e emocionante sucessão de tempos e, portanto, a curiosa transitoriedade do que se chama, simplesmente, vida. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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