Um recorte

Por: Júlia Moscardini

Enquanto caminhava pelo estacionamento, percebeu um carro vindo em sua direção. Apertou a bolsa com toda força que lhe restava no fim do dia. O carro parou, o motorista abriu o vidro e ela logo o reconheceu. Era um dos vários colegas  de sala de uma das muitas matérias optativas que ela cursava. Ofereceu- lhe carona e ela recusou educadamente e com certo receio. Mas no mesmo instante lembrou-se da tortura do caminho de volta e resolveu aceitar a ajuda. Entrou no carro timidamente e pelo longo percurso até o apartamento conversaram sobre tudo, principalmente sobre arte,  motivação de ambos. Pareciam se dar bem, ter interesses em comum. Riram juntos, filosofaram juntos, até cantaram juntos acompanhando as músicas do radio do carro.
 
Ao estacionar em frente ao prédio dela, aquele silêncio do não saber o que fazer reinou por alguns poucos instantes. Obrigada e até logo foi o que ela conseguiu falar e como resposta obteve um  não vai me convidar para subir? Preferiu subir só, achava melhor assim. Viver sozinha em uma cidade grande depois de anos na barra da saia da mãe já não era tarefa fácil. Um envolvimento amoroso agora só serviria para lhe tirar o foco dos estudos. Não que não pudesse lhe ser útil ou agradável de alguma forma e essa ideia lhe  era típica. Apaixonava-se  rápido demais, mas nunca tinha coragem suficiente para concretizar seus sentimentos. Aliás, coragem não era seu forte mesmo.
 
 
(...)
 
 
E assim passavam- se os dias para mais uma das incontáveis criaturas que circundam  a maior cidade do pais. Cada uma com sua vida, sua história, seus desejos e medos. Essa era mais uma daquelas politicamente corretas, organizadas ao extremo, que ainda ficavam melancólicas no Natal. Faladeira quando queria e carrancuda quando acordava. Tinham sérias dificuldades em falar ao telefone, mas não vivia sem ele. Impaciente, teimosa e ansiosa, características que já lhe haviam rendido  um buraco no estômago e alguns vidrinhos de  florais no canto da penteadeira, gostava de se olhar ao espelho. Olhava-se, penteava os cabelos, imaginava quantos espelhos seriam olhados naquele momento  e quantos cabelos seriam penteados  naquele instante, prédio, bairro , cidade, país, mundo. Via o mundo grande e sentia- se pequena como se o vento  a pusesse carregar. Olhava a sua volta e sentia- se grande demais para viver em um cubículo daqueles. Ora grande, ora pequena, ora feliz, ora triste, ora com frio, ora com calor. Ora turista, ora nativa, ora medrosa, ora destemida. Eram essas sensações que lhe causavam a boa e velha São Paulo, a “pauliceia desvairada”, a terra da garoa, ou simplesmente lar.
 
 
Júlia Moscardini, professora e mestranda em Estudos Literários

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