Bandido Raça Pura

Por: Ivan Marsiglia

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A última vez em que o repórter mineiro Fred Melo Paiva pisou numa redação foi em janeiro de 2012, em uma rápida encarnação na revista Época Negócios. De lá para cá, seu negócio passou a ser outro: televisão. É ele o jornalista da bem sucedida série O Infiltrado, do History Channel. No programa, ele é uma espécie de etnógrafo e observador participante que se intromete em universos desconhecidos o mundo dos pastores evangélicos, o metier das lutas de vale tudo, a cultura da música sertaneja e desconcerta os participantes com perguntas demolidoras e frases de efeito num tom que combina sua mineirice quase naïf com o espirito punk rock, jamais desencarnado, de sua adolescência. Bom para ele que a série estreou sua segunda temporada neste agosto, mas é uma pena ver um tal talento da reportagem escrita vazar para fora das páginas dos jornais e revistas. De que dá provas o livro lançado recentemente pelo selo gaúcho Arquipélago Editorial.
 
Bandido Raça Pura traz 36 perfis de gente ilustre, humanos anônimos, animais irracionais e até seres inanimados, publicados em uma década de desabalada carreira na imprensa brasileira em sua quase totalidade, no caderno dominical Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo. Nesses textos, a precisão na apuração e a integração criativa da forma de narrar com o conteúdo dos fatos, evocam os melhores momentos do new journalism americano, que revelou, nos anos 50 e 60 , autores para além de repórteres, como Tom Wolfe, Gay Talese e Truman Capote.
 
Não é por outra razão que, no prefácio do livro, o jornalista Ricardo Setti, que descobriu Fred ainda “foca”(iniciante, no jargão da profissão) na estelar redação de Playboy dirigida por ele em 1996, pontifica que em suas reportagens “ o jornalismo se alça à categoria de arte”.
 
Na primeira parte da coletânea, por exemplo, Fred dribla os interditos em torno da figura pública de Ronaldo Nazário para narrar em detalhes, e em clima de locução de futebol, a aventura do craque com três travestis em 2008 no Rio de Janeiro.
 
Com a irreverência quase cruel que é a marca dos seus textos, o repórter descreve o sorumbático ambiente do escritório de Oscar Niemeyer e descontrói ( sin perder la ternura) o centenário mito da arquitetura brasileira, descrevendo-o “pequenininho, frágil e orelhudo”. Ele também elege como personagens famosos Cauby Peixoto e Cleo Pires, seguidos de gente que não é estrela, mas acabou conquistando notoriedade pelos mais diversos meios. “Os anônimos são muito interessantes. Para que mereçam um perfil no jornal, eles precisam ter feito algo de fantástico, diferentemente da celebridade”, compara o autor. Contudo, os personagens inusitados por natureza são os que ocupam a outra ponta da tríade do Bandido Raça Pura. Fred Melo Paiva se dispôs a abordar o comportamento e interpretar os sinais emitidos por animais, com a mesma destreza aplicada na descrição de pessoas. “Quando saí para fazer perfis de bichos, encarava como se estivesse indo ao encontro de um humano”, ele afirma. “Levava questões parecidas na abordagem: como eles lidam uns com outros, como vivem. Procurava por características que a gente também tem, enquanto animais que somos”, declara o jornalista. A exemplo do que ocorreu no contato com tanta gente, a experiência de descrever e interpretar os seres irracionais também exigiu adaptação do autor no convívio com seus personagens. “Fiquei três dias na Paraíba, para traçar o perfil dos urubus. Estive lá, sentei, observei como eles comiam, como eles me olhavam”, recorda-se . em tempo: o “bandido” do titulo é um cão sob cujo olhar a vida acontece.
 
 “Escolhendo as matérias para o livro, além da nostalgia dessa época percebi que sou muito melhor por escrito do que televisionado”, brinca Fred, que procura exercitar a verve nas narrações em off que escreve para o programa e na coluna em homenagem ao Atlético Mineiro, seu time de obsessão, que mantém no jornal O Estado de Minas.
 
Diante da evolução digital que pôs em xeque o jornalismo, Fred lamenta menos a redução de vagas e os salários achatados do que a perda do ambiente vibrante que reinava nas redações, com muita troca de experiências e competição pelo melhor texto. Mas acha que o interesse renovado do mercado editorial por livros como o dele possa significar algum tipo de renascimento: “Há dois anos eu só conseguia enxergar crise. Hoje, já acho que tem alguma coisa acontecendo”. Tomara que Fred esteja certo e talentos como o dele continuem se infiltrando nas redações do futuro.
 
 
ARTISTAJORNALISTA
 
O nome de Fred Melo Paiva ganhou notoriedade em 2005 pela polêmica que causou seu texto demolidor sobre a Daslu, templo paulistano do alto luxo. O relato criado pelo autor, a partir do olhar de moradores da favela vizinha, provocou reação rancorosa dos proprietários, que pediram a cabeça do repórter.
 
Dono de um dos mais versáteis e inovadores textos da imprensa brasileira, o jornalista teve passagens por jornais como O Estado de São Paulo e O Estado de Minas; e revistas como Istoé, Playboy e Época. Seu livro de estreia, O Atleticano vai ao paraíso- do quase rebaixamento à conquista do título possível, resultou da reunião de 78 crônicas escritas entre agosto de 2011 e agosto de 2013, publicadas originalmente no jornal O Estado de Minas, com fotos de Gabriel Castro. Lembrando Nelson Rodrigues, no que este tinha de apaixonado por futebol, o autor conferiu arrebatamento às páginas onde procurou reviver a emoção dos jogos da taça Libertadores no período mencionado. Já os textos de Bandido Raça Pura, escritos nos últimos dez anos, mostram o uso de vozes narrativas que variam do insólito ao delicado. Na primeira parte do livro, o olhar inconfundível do autor desnuda gente famosa; na segunda, anônimos conduzem o leitor pelo labirinto de uma casa de swing, pelo mundo extinto do presídio do Carandiru, pela floresta cheia de onças em que um garoto ficou perdido por quase dois meses. As duas últimas partes perfilam personagens como ratos, urubus, um Boeing sucateado, peças de um leilão de bens de célebre traficante. São textos de inequívoca originalidade e elaborada estrutura, que elevam Fred Melo Paiva ao patamar do jornalismo-arte.
 
 
Filme
Título:  Bandido Raça Pura 
Autor: Fred Melo Paiva
Editora: Arquipélago

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