Plena atenção na ação

Por: Jane Mahalem do Amaral

O Yoga e a Meditação têm me ensinado isso. É tão claro e tão óbvio que parece não necessitar de aprendizagem. Mas quando decido pôr em prática, a cada momento do dia, percebo como é difícil ficar atento o tempo todo, em cada ação que realizo. 
 
O que acontece normalmente é que estamos sempre fazendo uma coisa e já pensando na próxima. Ou, enquanto realizamos algum trabalho, nosso pensamento está perdido em sentimentos, mágoas, tristezas ou mesmo alegrias que já vivemos. Na verdade, nunca estamos no presente. O que isso provoca é o que chamamos de desintegração do corpo, mente e espírito. E o resultado é puro desgaste físico, mental e distanciamento de nossa identidade espiritual.
 
Tenho procurado treinar. É isso mesmo: um treino diário e contínuo. Sentar para descascar uma laranja e ficar apenas centrada nessa ação. Almoçar ou jantar com a atenção naquilo que coloco na boca, sentindo o sabor de cada alimento e observar a mastigação. Lavar a louça sem aflição para acabar logo porque tenho coisa mais importante para fazer. Preparar uma refeição com cuidado e, mesmo que as pernas doam de ficar em pé, estar presente no olhar e no toque de cada alimento. Saborear vagarosamente uma banana. Ter paciência para ouvir quando eu preferia não estar ali,  escutando aquilo. Seja qual for o momento, o treino é essencial, pois só estamos treinando viver o presente. E o presente é a única realidade que temos. 
 
Como, na maioria das vezes, não estamos nessa presença, muita coisa ruim nos acontece. Por exemplo, outro dia cai na rua porque coloquei meu pé em um buraco da calçada. Não vi o tal buraco, ou melhor, estava andando pela rua com a minha mente em outra coisa e não no meu andar. Caminhar é observar cada passo, perceber o que está em volta, ouvir os ruídos. Também podemos esbarrar o carro em algo porque não estávamos presentes. E a pressa? Essa é outra coisa que nos tira completamente a atenção, já que queremos resolver algo que ainda não está ali, naquele momento e naquele espaço.
 
Muitas vezes culpamos a vida corrida, o relógio que voa, mas a culpa, ou melhor, a responsabilidade é só nossa e, penso que mesmo em outros tempos, mais tranquilos e menos corridos, sempre existiram pessoas atormentadas e ansiosas.
 
Para que saibamos como isso não é bom para ninguém, é só nos colocarmos em uma situação em que o outro esteja desatento em relação a nós. Por exemplo, você já sentiu medo quando percebe que a manicure está distante ao cuidar das suas unhas? Ou quando alguém dirige o carro, falando muito e olhando para trás? Ou quando você está contando algo que  julga importante e o seu ouvinte está declaradamente sem atenção?
 
E o que essa desintegração tem feito com cada um de nós? Em que resulta fazer uma coisa e estar pensando em outra? O que pode sofrer um corpo que não está integrado à sua mente? Quais os danos para uma mente que não realiza a ação do corpo? O que temos visto são doenças que se chamam ansiedade, pânico, depressão, dores em todo o corpo e muito mais. Remédios? Podem ajudar, mas não vão curar essa  profunda divisão interna.
 
Ninguém é culpado pelas minhas desatenções: nem o tempo, nem a vida, nem as outras pessoas. Sou eu o sujeito da minha história e devo assumir essa responsabilidade sempre. Se errei, compreender o erro e seguir em frente, carregando mais uma aprendizagem. Se acertei, perceber que estou caminhando na direção certa. Só isso. Plena atenção na ação. Simples assim. 
 
 
Jane Mahalem, escritora
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras