De primeiro (13)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, o pai e a mãe, analfabetos, ensinavam a primeira lição: respeitar as pessoas mais velhas.
 
O pai e a mãe, analfabetos, eram sábios, desenvolviam Pedagogia própria, embora desconhecessem as ciências do relacionamento humano. Transmitiam valores e comportamentos através da repetição de palavras e exemplos. Corrigiam lapsos e distrações também com castigos que transitavam desde o puxão de orelha até o tapa ou a correiada na bunda.
 
A Psicologia, a Pedagogia e as leis modernas condenam tais métodos de educação, que consideram quase medievais. Apesar do arcaico da metodologia, a meninada, aos trancos e barrancos e quedas e castigos, aprendia o básico. Chegavam visitas, o menino se adiantava:
 
- Bênção, senhor. Bênção, senhora.
 
As visitas elogiavam o comportamento das crianças. Então, quando se iam, o pai dava níquel aos filhos que corriam até a venda, lá na esquina.
 
- Sô Zé, dá tudo isso aqui de bala Chita.
 
Os adolescentes do quarteirão, à noite, à luz do poste, contavam, ouviam histórias de assombração, de lendas e ídolos.
 
- Lá em São Paulo teve um ladrão chamado Meneghete que fugiu da cadeia mais de quarenta vezes. Não adiantava prender que ele escapulia.
 
-- O Frederracha chutava mais forte que um canhão. Uma vez ele jogou contra o seu irmão, que era goleiro. Teve um pênalti e o Frederracha avisou – “não fique na frente, senão você vai morrer”. Mas o irmão teimou que ia pegar o pênalti. O Frederracha chutou e o irmão encaixou. Mas o chute foi tão forte que o goleiro morreu.
 
- O maior goleiro que já teve foi o Oberdã. Ele não aceitava fazer barreira. Mandava chutar e defendia, segurava a bola com uma mão só.
 
De repente, a narrativa era cortada por assovio distante.
 
- É o pai, chamando pra dormir.
 
Um assovio, um pigarro, uma pequena tosse, um chamado baixo, e a rodinha de amigos se ia desmanchando, o resto da história ficava para a noite seguinte, para o próximo encontro.
 
De primeiro era assim. 
 
Os professores eram humildes, mas os discípulos aprendiam bastante. Pediam licença para passar entre duas pessoas que conversavam. Aguardavam, não interrompiam conversas. Não furavam filas. Externavam, em gestos e atitudes,  profundo respeito pela mulher, sobretudo pela grávida.
 
No entanto, as crianças eram crianças. Às vezes  cometiam peraltices tamanhas.
 
De primeiro era assim...
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

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