A última serenata

Por: Everton de Paula

Ainda era o tempo delas, não das primeiras do século passado, mas daquelas que se faziam na década de 60, início de 70, os tais chamados anos dourados.
 
A turma costumava reunir-se aos sábados. Eram cinco os companheiros, e mais o violão, atabaque, flauta e vozes. Ensaiavam na casa de um deles, entre inesquecíveis rodadas de uísque ou cerveja, alguns petiscos e tome bossa-nova e baladas românticas da época.
 
Como dizem que o romantismo retrata o meio não como ele é, mas como se anseia por ser, toda serenata era feita aos sábados, e todo sábado havia lua cheia.
 
Começava aí por volta de meia-noite e se estendia madrugada adentro. As primeiras casas eram das namoradas, ou das pretendidas. O grupo principiava pelo toque de violão, os primeiros versos eram entoados e, logo, uma lampadazinha se acendia do lado de fora da casa, ou no alpendre. Era o sinal: a moça estava escutando; podia-se cantar sossegado, principalmente quando o pai não fosse bravo.
 
Era quando, invariavelmente, começavam os pequenos incidentes: a cachorrada da vizinhança querendo porque querendo participar da cantoria... E uivava durante toda a apresentação, enquanto o flautista, de instrumento em punho, tentava afastar um totó dos pés; as recentes piadas que ainda estavam se mexendo na mente de cada um, fazendo com que todos se esforçassem para não estourarem em risadas no meio de uma canção romântica... Coisas assim...
 
A vida continuava tranquila para todos até que, sem que soubessem, participaram daquela que foi a última serenata. Ao menos para eles. 
 
Não havia lua cheia. As ruas por onde passavam estavam acabrunhadas, as casas meio que escondidas pela densa neblina da madrugada. O grupo tentava manter-se firme no propósito de tornar alegre a cantoria.
 
A luz frouxa e fraca do poste mais próximo iluminava o grupo solitário e se espalhava por sobre os paralelepípedos úmidos quando se deu terminada a primeira seresta. Começaram a arrumar os instrumentos para a segunda apresentação, no exato momento em que  um estranho se aproximou. Trajado de terno branco de linho, como um boêmio de primeira, apresentou-se sorridente. Cumprimentou pelas músicas, dizendo que as ouvira de longe e que vinha procurando o grupo, guiado pelo som melodioso. Dobrou a esquina e... Ei-los!
 
Todos foram muito receptivos e convidaram-no a acompanhá-los. O estranho sorriu uma vez mais e, com voz macia e grave, pediu um favor, não querendo abusar da boa-vontade e essas coisas. O grupo, mais que simpático ainda, disse estar à disposição. O estranho disse que ficara devendo uma serenata para a noiva e que apreciaria se pudesse fazê-la naquela noite. Todos toparam e seguiram adiante.
 
Pararam ao pé de uma ladeira. Desceram do carro e subiram-na a pé, calçada tortuosa e escorregadia. O estranho mostrou a casa. Assobradada, alta, janelas quietas, tudo adormecido. O estranho afastou-se um pouco, cruzou as mãos sobre o ventre e sorriu de leve. O grupo pôs-se a cantar romanticamente, uma música cuja letra falava de despedida. Enquanto cantavam, o estranho mantinha o olhar numa das janelas. Ou todos se enganaram, ou ouviram mesmo um choro feminino na intimidade do quarto. Mas ninguém apareceu. Nenhuma luz foi acesa. Ô gente mal-educada. Terminou o canto. O estranho agradeceu e, como surgiu do nada, no nada desapareceu, fundindo seu vulto na neblina e escuridão do fim de rua. Nem seu nome revelou.
 
Momento inesquecível.
 
Ninguém teve mais ânimo para continuar.
 
Cada um foi para sua casa.
 
O sono, o copo de água, a cama...
 
Cada qual acordou no dia seguinte, em seu horário costumeiro. Era um domingo.
 
Cada seresteiro pegou o jornal da manhã. Como sempre faziam.
 
Cada companheiro levou o seu susto: lá estava, estampada, firme e nítida, na coluna dos obituários, a fotografia do estranho, numa pequena nota que anunciava missa de sétimo dia, por intenção de sua alma.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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