As Fábulas fabulosas de Monterroso

Por: Ubiratan Brasil

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Menos de 50 letras tornaram famoso o escritor hondurenho Augusto Monterroso (1921 2003) afinal, é assinado por ele O Dinossauro, o microconto mais famoso do mundo e que limita a uma única frase: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. “Esse fenômeno de brevidade e concisão correu o mundo em múltiplas traduções, despertando abracadabrantes teorias sobre as suas mais recônditas intenções alegóricas ou metafóricas”, escreveu Sergio Augusto no Estado, em 2003, quando da morte do escritor.
 
Quando se buscavam explicações para um texto tão enxuto, Monterroso desconversava: “Não me agrada explicá-lo. Prefiro deixá-lo entregue à imaginação de cada um”. Na verdade, basta conhecer um pouco mais da obra de um autor tão importante como desconhecido no Brasil para se entender um pouco seu estilo homem de estatura mediana (1,60m), aspecto frágil, Augusto Monterroso deixou uma escrita concisa, irônica, extremamente critica e que transmitia um bom humor em relação á existência humana.
 
Um estilo muito semelhante ao de Millôr Fernandes (1923-2012), que também pregava a concisão como melhor caminho para um bom texto. Não foi por acaso, aliás, que Millôr traduziu um dos raros livros de Monterroso publicado no Brasil, A Ovelha Negra e Outras Fábulas, editado pela Record em 1983 e que ganha agora uma nova e bem-vinda edição pela Cosac Naify.
 
Se a nova versão deve algo à da Record, é a ausência das ilustrações de Jaguar. No mais, ali estão 40 minicontos cuja marca principal é a utilização do humor para criticar situações de injustiça social. Como em O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar, um dos menores textos do livro (28 palavras),que mostra a amargura de um raio que, como diz o titulo, atingiu duas vezes um mesmo lugar e se sentiu deprimido por acreditar que, na primeira vez, fez um estrago suficiente.
 
“Não se engane, leitor, com a aparente simplicidade desse bestiário”, escreve Vilma Arêas, no texto de apresentação de A Ovelha Negra. “Ele é encharcado de veneno. Vira pelo avesso o gênero exemplar da fábula, animando-a com o sopro das grandes paixões do autor: a literatura e a politica.”
 
De fato, Monterroso, apesar de nascido em Honduras, passou a juventude na Guatemala e, em1944, foi obrigado a se exilar no México, fugindo de uma ditadura. Lá, permaneceu mesmo depois que a situação aparentemente se acalmou em seu país. A condição assumida de apátrida aguçou lhe o senso critico para as diversas dificuldades com as quais era obrigado a conviver e, antes de semear um espirito beligerante, incentivou - lhe a criatividade, a mordacidade.
 
Um exemplo clássico está em A Ovelha Negra, uma das melhores Fabulas do livro. Ali, Monterroso conta a história de uma ovelha negra fuzilada pelas demais. Passado um século, o rebanho, arrependido, ergue uma estátua em sua homenagem, que fica muito bem no parque. O inusitado vem a seguir: a partir daí, todas as ovelhas negras passam a ser mortas, para que as demais, comuns e vulgares, possam exercitar a arte da escultura. “Assim, a ‘moral da fábula’, fecho comum à milenar tradição do gênero, transforma se em imoralidade exposta”, observa Vilma Arêas.
 
A concisão é uma meta que exige trabalho criterioso e também árduo. O mexicano Juan Villoro, cujos novos livros em português fizeram muito sucesso, participou, em 1976, de um workshop com Monterroso. Eram poucos alunos, mas o ensinamento ficou sedimentado. “Em suas palavras, a literatura apresentou-se para nós como uma montanha quase intransponível”, escreveu Villoro, em um artigo escrito sobre o mestre. “Nós, que participamos de sua oficina literária, lhe devemos a generosa noção do risco literário.”
 
Villoro e seus colegas aprenderam uma lição detalhada pelo critico e tradutor Eric Nepomuceno, em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1997, no qual afirma, certeiro: “A concisão absoluta de seus relatos breves espelha uma de suas convicções literárias: para Monterroso, ‘a frase não deve aparecer, não deve ser vista: o que deve aparecer, o que deve ser visto, é o que a frase diz’.”
 
“A sátira elegante, que demole a soberba dos poderosos, e a presença de bichos como personagens centrais de muitos de seus contos e suas pequenas fábulas, formam outra das características de seu estilo e seu trabalho”, continua Nepomuceno. E conclui: “O manejo da arte de narrar demonstrado por Monterroso abriu novos caminhos para a literatura das últimas décadas na América espanhola, embora não tenha criado exatamente seguidores: ele é um desses escritores cuja influência se espalha muito além de uma eventual quadrilha de copiadores.”
 
 
O RELATO BREVE
 
Augusto Monterroso é o maior expoente hispânico do gênero mais breve da literatura, o microrrelato, e um dos escritores mais peculiares, não apenas por sua modéstia e simplicidade, mas também por sua grande inteligência e seu humor triste. Autodidata, abandonou os estudos para se dedicar a leitura dos clássicos, como Cervantes, cuja influência é notória em sua obra.
 
Filho de mãe hondurenha e pai guatemalteco, Monterroso nasceu em 1921 em Tegucigalpa, Honduras, mas em 1936 se mudou para Guatemala. Foi nesse país que publicou seus primeiros contos e deu início à sua luta contra a ditadura de Jorge Ubico, fundando o jornal El Espectador com um grupo de outros escritores. Devido ao seu empenho e oposição à ditadura, em 1944 foi exilado para a Cidade do México. Pouco depois, com a queda do governo ditatorial de seu país, Monterroso foi designado para um posto menor na embaixada da Guatemala, no México. Anos mais tarde foi cônsul em La Paz, Bolívia. Morou por curto tempo em Santiago do Chile. Em 1956 retornou, definitivamente, à Cidade do México onde ocupou diversos cargos acadêmicos e editoriais; e continuou seu trabalho como escritor até o final de sua vida, em 2001, aos 81 anos.
 
É considerado o maior representante do gênero curto, que criou nos anos 70 e ao qual denominou microrrelato. Foram poucos os que conseguiram segui-lo, pois a simplicidade destes textos é apenas aparente, já que a eles subjazem raízes sofisticadas nutridas por um gosto especial pela palavra e sua capacidade de concentrar imagens. Um de seus minicontos mais conhecidos, matriz de outros que seriam reunidos no livro Contos e traduzidos para muitas línguas, está o famoso O dinossauro, que tem apenas oito palavras, incluindo o título: “Quando acordou, ele ainda estava lá.”
 
Augusto Monterroso recebeu inúmeros prêmios e honrarias, nacionais e internacionais.
 
Sua produção encontra-se nos títulos Obras completas y otros cuentos, Movimento perpetuo, La palabra mágica, Cuentos e o citado A Ovelha Negra e Outras Fábulas. 
 
 
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Título:  A Ovelha Negra e Outras Fábulas
Autor: Augusto Monterroso
Tradução: Millôr Fernandes
Editora: Cosac Naify (98 págs., R$ 29,90)
 
 
Ubiratan Brasil, jornalista

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