Em 'Nossas Letras' leia 'A Incrível História do Anjo e Sua Namorada'

Por: Paulo Rubens Gimenes

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Ninguém sabe ao certo quando tudo aquilo começou, o fato é o Bielzinho, filho de dona Judite e seo Carlos, deu pra fazer milagres. Nada de muito excepcional como fazer chover ou ressuscitar morto; milagrinho pequeno - fazer desabrochar uma flor, perfumar o ar ao seu redor, curar passarinho vitimado de estilingue coisinha pequena mas que encantava as pessoas da Borda da Mata.
 
Feito fogo no paiol a notícia espalhou-se pelas redondezas Tinha um anjo na Borda! Rapidinho romarias de gente de pouca posse e muita fé começou a chegar no pequeno sitioca do seo Carlos. 
 
O povo pedia de tudo: curas para as chagas, soluções para amores mal resolvidos, notícias do filho que saíra da vila rumo à capital, benzedura contra mal olhado, fortunas ou uma simples mistura pro almoço de domingo.
 
Bielzino, menino de dez anos, sem entender direito todo aquele tumulto, nada dizia, somente sorria e espalhava aquele cheiro perfumado pelo ar à sua volta; isso, pra aquela gente carente de tudo era o que bastava e saíam de lá encantados, espalhando por todos os cantos os milagres, verdadeiros ou frutos da imaginação, do anjo-menino.
 
Não tardou para que a fama de Bielzinho chegasse primeiro à Capela de Nossa Senhora do Rosário em Borda da Mata, depois até a Cúria Diocesana de Belo Horizonte. Rapidamente chegaram ao vilarejo uns “doutores de batina” pra investigar o acontecido. Católicos fervorosos, a família de seo Carlos e Dona Judite era muito respeitada pela Igreja de maneira que os padres investigadores fizeram a “bisbilhotagem” com muito respeito e concluíram que, apesar do exagero do povo, aquele menino tinha algo de especial e determinaram que Bielzinho devia ir pro estrangeiro pra ser estudado e posteriormente ser enviado para o Vaticano que é o lugar ideal para os anjos.
 
Movida pela fé e pela devoção às causas católicas, dona Judite concordou, orgulhosa, com a determinação dos padres. Bielzinho partiria na manhã seguinte junto aos padres investigadores.
 
Acontece que antes de tudo; antes dos milagres, da investigação e da determinação, Bielzinho havia prometido seu amor de menino à Madalena amiguinha de colégio por quem seu coração batia mais forte. Porém, em meio àquele turbilhão de acontecimentos, partiu sem poder se despedir de seu amor. Tempo? Somente para deixar um bilhete sob a pedra embaixo da mangueira onde passavam tardes inteiras de prosa fiada. O bilhete dizia: “Eu volto!”
 
O tempo, esse fazedor de “ontens”, passou. Bielzinho nunca mais dera notícias, nem mesmo para os pais. Madalena com os olhos calejados de vazios, diariamente visitava a mangueira dos encontros e cada ano que passava ia secando sua pele, sua beleza, seu buxo ávido por uma semente de filho que nunca veio. Estando quase nas quarenta primaveras ela encontra sob a mesma pedra da mangueira um novo bilhete “Me encontre amanhã às seis horas no Morro do Susto. B.”.
 
Era ele, com certeza! E o coração, o corpo, a alma, enfim tudo na Madalena estremeceu de alegria. A noite que precedeu o encontro foi noite de vigília, de viagens pela imaginação, de olhos colados ao relógio vendo o vagaroso caminhar dos porteiros.
 
Bielzinho estava de cócoras no alto do morro, um cobertor cobria suas costas protegendo-o do frio da madrugada, véspera do dia claro. Madalena chegou ao seu lado caminhando rapidamente, usava um surrado vestidinho de chita, imune ao vento frio, pois já era de gelo seu coração.
 
Não se tocaram e por alguns segundos miraram-se tentando enxergar através das rugas e cabelos brancos os meninos apaixonados que um dia foram e que por conta de alguns pequenos milagres tinham sido separados. Bielzinho, com candura, porém de modo direto quebrou o silêncio:
 
- Eu disse que ia voltar, mas não posso ficar.
 
- Você tem outra namorada?
 
- Não, não tenho ninguém, mas todo mundo me tem. pela primeira vez Madalena viu lágrimas escorrerem dos olhos de seu amado.
 
Bielzinho levantou-se, desfez-se do cobertor que lhe cobria as costas, abriu um belo par de asas e planou sobre o Vale das Goiabeiras até desaparecer na linha do horizonte.
 
Engolindo a dor, Madalena sussurrou entre suspiros:
 
- É mais fácil ter um anjo do que ter um grande amor.
 
 
Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca

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