O insuportável horário político

Por: Chiachiri Filho

Em minhas campanhas eleitorais, deparei-me com muitas situações agradáveis, desagradáveis, estranhas, perigosas, hilárias, animadoras e desanimadoras. Numa bela manhã de setembro, à beira de um campinho de futebol num dos bairros da cidade, comecei a entregar os meus panfletos  aos eleitores, que assistiam atentamente ao jogo,  com o objetivo  de esclarecê- los  e atraí-los para a minha causa.Ao entregar o meu “santinho” para um grupo que exalava  bafo de cachaça e cheiro enjoativo de um “baseado” , recebi o pedido de uma cervejada.  Como eu não estava preparado e nem disposto a pagar as cervejas, um dos membros do grupo, marcado por tatuagens enigmáticas, foi direto:
 
- Oh mano! Horário político é na televisão. Aqui nóis não gosta disso não! 
 
Antes que o indivíduo terminasse de falar, eu já estava no carro em busca de locais mais amistosos e salutares para a minha pregação política.
 
Hoje, não sendo mais candidato e sim um simples eleitor, eu dou razão ao, posso dizer com toda certeza, meliante. De fato, estimado leitor, não há nada de mais chato e insuportável do que o horário político. Sem dúvida, a seriedade passa longe  da maioria de nossos políticos. Falam por falar, não medem o efeito que suas palavras podem causar no eleitor. São completamente  irresponsáveis em sua busca desvairada pelos votos. Alguns partidinhos parecem ter decorado aquele livro famoso de George  Orwell que nos  fala da  Revolução dos Bichos.  Os situacionistas sempre pintam um quadro em que a vida flui alegre, feliz, esperançosa e sem maiores problemas.  Se reconhecem que alguma coisa não vai bem, acrescentam logo que ela vai melhorar na próxima gestão. Os oposicionistas  são verdadeiros profetas do Apocalipse: nada está bom, tudo está ruim , desorganizado, bagunçado, catastrófico. Salvadores da Pátria,  julgam-se com força e poder para solucionar as nossas carências. Triplicam os salários, oferecem saúde gratui
ta  para toda a população, prometem ensino integral para todos,  acenam com  o passe livre para os usuários dos ônibus, garantem que não vão aumentar os impostos,  aperfeiçoam a segurança pública com a contratação de novos policiais, multiplicam a infra-estrutura e oferecem crédito barato para quem desejar produzir e colher. Porém, não dizem com clareza de onde virá tanto dinheiro para saldar tantas dívidas e cumprir tantas promessas.
 
Dinheiro não cai do céu. Não há obras ou serviços públicos gratuitos. Pagamos as contas através dos  impostos que nos são cobrados. 
 
Portanto, incrédulo leitor, o horário político não passa de uma grande propaganda enganosa. Além do mais, não é tão gratuito quanto se pensa: as empresas descontam o tempo concedido no imposto a pagar.  Melhor seria se os candidatos fossem sabatinados por um grupo de especialistas aptos a extrair deles a verdade, só a verdade, nada mais do que a verdade.Caso essa idéia prosperasse, é bem provável que as telas de nossas televisões ficariam livres dos insuportáveis programas políticos.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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