O reencontro

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

O intenso amor de sua juventude não poderia acabar com a ida dele para a cidade grande, em busca de oportunidades melhores. A promessa de voltar que lhe fizera não se concretizara e, mesmo assim, ela esperou o tempo todo por ele. Betinho deixara uma marca indelével em seu coração e a crença de que voltaria a fez viver, mesmo que em solidão, reclusa, permitindo-se, somente, ir ao trabalho. O resto do dia ocupava-se com seus pensamentos, encarcerada em seu cotidiano. A lembrança dele, sombreada pela separação, era a luz de sua vida.
 
Joana permanecera no mesmo lugar, com seus hábitos insólitos, sua imaginação delirante, fixada em uma imagem do passado, alimentando um sonho intangível, sustentado por um tênue fio de esperança. Sozinha, fenecia como uma flor. Tinha contato, apenas, com uma única prima dele que, após tantos anos, lhe noticiara a sua volta  para lá ,pois queria vê-la.
 
Um turbilhão de emoções brandiu o coração de Joana, deixando-a alquebrada e fraca. Presa ao passado, ela reuniu forças e foi ao embate com o futuro. Ao ficar, face a face, com o seu amor viu que se atrasara. Estava diante de um senhor, de corpo avantajado, cabelos grisalhos, pele castigada pelo sol, marcada pelo tempo, pálpebras caídas, olheiras salientes, voz rouca. Ela esquecera-se de que o tempo é inexorável. Também não notara seu próprio envelhecimento. Além da desconstrução da aparência, o olhar aguçado dele, revelador de muitas experiências vividas, a assustara. Sua fala não era a mesma. Não havia a ternura da juventude. A ilusão que fomentara por anos e anos desmitificara-se. Em poucos segundos, deparou-se com o sonho destruído. Percebera a inutilidade de sua espera, a vida não vivida. Trêmula, afastou-se silenciosamente, tomada por um forte sentimento de melancolia. Conseguiria Joana enfrentar o tempo que lhe restava e reinventar seu futuro?
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 

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