Joias e bijuterias

Por: Eny Miranda

Foi num programa de bate-papo, na televisão. Jornalistas e atrizes rememoravam as conquistas da mulher, desde o século passado. E diziam que este será só delas. Justificavam a assertiva citando exemplos e estabelecendo comparações: há algumas décadas, nos grandes filmes, à mulher raramente cabia o papel principal, ao passo que hoje ela não só protagoniza películas respeitadas pela crítica internacional, como também, e frequentemente, alcança prêmios maiúsculos, por interpretações irretocáveis. Se a conquista do voto, que é coisa relativamente recente, levou a mulher a eleger seus escolhidos, agora ela também se tornou elegível e, muitas vezes, eleita. A presidente do Brasil é uma mulher. E no momento tenta mais um mandato. Nesta corrida presidencial são mulheres as líderes nas pesquisas de intenção de voto para o cargo. Há bem pouco tempo, quem ousaria pensar em mães, irmãs, esposas discutindo política, física, economia... em pé de igualdade com os homens, e até ocupando ministérios, diretorias, presidências e outros altos postos, técnicos ou políticos, antes eminentemente “masculinos”? Quem não se surpreenderia com mulheres graduando-se em medicina, engenharia ou astronomia; com mulheres seguindo carreira militar...
 
Lembro-me do velho álbum de formatura de meu pai em medicina. Eu, menina, folheando certa vez esse álbum, vi uma bela mulher, olhos luminosos, cabelos longos e nome estranho, em meio a tantos rostos masculinos, o que a mim causou certo espanto. “É alemã.” Disse-me papai. “A única representante do ‘sexo frágil’ na turma. Inteligentíssima, brilhante.” Completou. Nunca me esquecerei do que senti, naquele momento: uma emoção cálida tomando o peito, o coração batendo forte, orgulhoso de minha condição feminina.
 
Voltando ao programa da televisão, as participantes, cada vez mais entusiasmadas, não se cansavam de listar conquistas e projetos de conquistas das heroínas do século: seu papel ativo no desenvolvimento econômico e social da nação, na prosperidade do núcleo familiar, no bem-estar dos filhos... mas também, e principalmente, na geração de sua própria independência. “Hoje a mulher é livre”, diz uma. “Não precisa do homem para viver bem.” 
 
“Quando pequena, eu sempre ouvia histórias de príncipes e princesas que se casaram e foram ‘felizes para sempre’”, lembra outra, com ironia. “Sim”, retoma a primeira, “e era a mãe que, presa a casa, contava essas histórias às filhas. A mesma que, presa ao fogão, fazia biscoitinhos e bolos para agradar às crianças e ao marido.”
 
“Hoje a mulher não precisa mais disso”, observa uma terceira. “Pode deixar os filhos entregues a bons profissionais, treinados para atendê-los e educá-los, ou a especialistas online, o que, por acréscimo, os tornará independentes, aptos a viver suas próprias vidas, e dará a ela tempo suficiente para crescer profissionalmente, aumentar sua renda e melhor prover o seu bem-estar e o de seus filhos. Os velhos costumes tendem a ficar cada vez mais distantes. A mulher deste século não deve abrir mão de seus ideais de satisfação pessoal, de sua liberdade. Ela quer - e pode - ser dona de seu corpo e de sua vida.”
 
“Aliás, falando em corpo, daqui a alguns anos, a escravidão da ‘barriga’ e do ‘peito’ também tenderá a acabar”, conclui outra participante. “Haverá profissionais dispostas, desde que bem remuneradas, a conceber, gerar, parir e até mesmo amamentar o filho de outra mulher, o que eu acho justo e natural. A gestação também poderia se fazer em laboratório, por que não? O importante, na maternidade, é a ‘genética’, não o leite e o abrigo. Assim, as crianças já nasceriam livres das amarras umbilicais da mãe ‘superprotetora’, e as mães estariam livres das estrias e da flacidez.”
 
Nunca me esquecerei do que senti, ao compreender a dimensão daquelas palavras: surpreso, o coração bateu descompassado, assustado com a minha condição feminina. E uma lágrima ardente dele escapou, queimando o meu peito.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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