Um Diálogo com o Futuro

Por: Josiane Barbosa Oliveira

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Inteligência Artificial é um filme de 2001 que narra a auto-descoberta de um robô. Parece estranho? Sem dúvida é muito estranho. Como estranhas são todas as experiências novas, não ainda demarcadas pelo nosso viver, sentir e introjetar.
 
Uma sensação inquietante percorre toda a trama. Inicialmente o espectador é convidado a identificar-se com uma mãe que perde o filho, possibilidade pertencente a nosso rol de medos e referências. Gradativamente, porém, o protagonista do filme passa a ser o “filho artificial”, pequeno artefato de alta tecnologia que se propõe a adquirir uma “humanidade”. E o que vem a ser essa característica que nos diferencia de um ser não-humano?
 
São apresentados argumentos das mais variadas fontes: poéticas, científicas, filosóficas, literárias. Personagens entrecruzam-se de uma forma rápida na oferta generosa de tantos pontos de vista. Como humanos aceitamos e não aceitamos as propostas apresentadas, um “Yes” ou “No” binário de máquina que nos des-instala, nos des-formata.
 
Quando lançado em 2001, Inteligência Artificial ganhou notoriedade principalmente por ser um projeto de dois gênios da cinematografia: concebido e parcialmente realizado por Stanley Kubrick, roteirizado, dirigido e realizado por Steven Spielberg. Admirado por muitos, interpretado como homenagem de um ficcionista ao outro, identificado como um falso acoplar de visões diferentes por fãs de um ou de outro. Tantas posições que só despertaram a curiosidade sobre a fantasia de futuro. Ousada, intrigante, a narrativa lida com as difíceis interações homem-máquina ou homem suas criações. Afinal, nossas “obras” são o que restarão de nós?
 
Se tanto Spielberg quanto Kubrick já haviam bisbilhotado o futuro em películas anteriores, neste momento vão além: há o futuro do futuro. Possibilidade que vem como fábula a nos perguntar: quanto vale um dia?
 
Inteligência Artificial ainda conta com a sensível interpretação de Haley Joel Osment que ao caricaturizar os gestos as falas, as maneiras humanas espelha-nos o tempo todo o nosso lado mecânico. Ele, uma máquina buscando a vida. Nós, seres vivos tentando fugir das repetições automáticas. Destaca-se também a atuação de Jude Law no papel do amante-robô Joe. O personagem enuncia uma hipótese do porquê os humanos amam, introduzindo a idéia de cada um ser amado segundo a sua utilidade. Seria um pensamento “mecânico” aplicável ao “orgânico”?
 
O enredo-aventura é um convite incessante à observação do que nos faz humanos ou artificiais, com todas as nossas obsessões. Filme premiado com o Oscar e o Globo de Ouro traz mais uma oportunidade de enriquecedora conversa à luz da Psicanálise.
 
Neste sábado às 15h00min na Sede Campestre do Centro Médico de Franca o filme Inteligência Artificial vai ser comentado pela médica e psicanalista Fátima Maria Cassis Ribeiro Santos . A palestra faz parte do projeto Cinema e Psicanálise, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, que ocorre mensalmente. Sintam-se convidados!
 
E ainda para este segundo semestre de 2014, ano em que o evento Cinema e Psicanálise celebra seus cinco anos de atividades ininterruptas, estão programados dois filmes que, como o deste sábado, deverão despertar interesse e mobilizar atenções. No próximo 18 de outubro será exibido Mãos talentosas: a história de Ben Carson, tendo a comentá-lo Silvana Vassimon, psicanalista, analista didata da SBPRP, membro associado da SBPSP e psicóloga. Em novembro estará em cartaz no dia 8 Vitus, filme que ensejará considerações de Sonia Maria de Godoy, membro filiado da SBPRP, mestre em Psicologia Clínica pela PUC SP e psicóloga. 
 
As sessões do Cinema e Psicanálise acontecem uma vez por mês no anfiteatro do Centro Médico de Franca, localizado na Rodovia Tancredo Neves, saída para Claraval, km 2. O evento é aberto ao público em geral. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone (16) 3722 5215.
 
 
DIRETORES
 
Steven Spielberg
Diretor, produtor e escritor, Steven Spielberg é americano de origem judaica. Cineasta, filma como quem sonha. Afirmou, em várias entrevistas que muitos dos seus filmes se originaram de medos e fantasias infantis.
 
Produziu vários títulos, destacando-se em sua cinematografia: Tubarão (1975), E.T. (1982), Império do Sol (1987), A Lista de Schindler (1993) além da trilogia do herói Indiana Jones.
 
Sobre A.I. Inteligência Artificial, Spielberg conta que conversou durante 20 anos com Stanley Kubrick, ambos imaginando o projeto que resultou no filme.
 
Stanley Kubrick
Diretor e cineasta de características marcantes e singulares, Kubrick era considerado por muitos um artista “rebelde”. Em defesa própria relatava que utilizava o cinema para transmitir mensagens fortes e significativas. Seus clássicos realmente parecem insuperáveis: “2001 Uma Odisséia no Espaço” (1968), Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980) são alguns dos exemplos de cinema criativo, transformador e base inquestionável para reflexões profundas. No nível da forma, sua técnica meticulosa, reflexo de uma personalidade perfeccionista, o colocam no patamar dos mais importantes cineastas da história. Morreu em 1999, aos 71 anos, enquanto dormia, talvez sonhando com o filme que Spielberg conseguiria realizar algum tempo depois. Sua última produção foi o polêmico De olhos bem fechados, que lhe custou dois anos de trabalho e dividiu opiniões, tanto da crítica quanto do público. 
 
Inteligência Artificial foi inspirado pelo conto do escritor Brian Aldiss, datado de 1969, que Kubrick lera nos anos 80, intitulado Superbrinquedos duram o verão todo. A ficção, intrigante e premonitória, tem uma história dentro de outra; ou, segundo o ângulo de visão, uma narrativa que abraça outra. Rico em imaginação, oferece ao leitor o painel de um mundo futuro onde as máquinas já dominam parte da vida humana, e caminham para substituí-la. O tema eterno do criador e sua criatura é revisitado pelo discurso do narrador e pela fábula vivida pelos personagens. O livro, produto literário, é bom. Mas o filme, enquanto sequência e sobreposição de imagens impactantes, é melhor.
 
 
FILME
 
Título:  Inteligência Artificial
Direção: Steven Spielberg
Atores: Haley Joel Osment, Jude Law
Gênero: Ficção científica , Aventura , Drama
Duração: 2h20min
 
 
Josiane Barbosa Oliveira, psicóloga

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