Deficiência

Por: Ronaldo Silva

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Era manhã de um ensolarado sábado de outono. Eu acompanhava meu pai, que desejava velar o corpo de um seu amigo de juventude e, claro, prestar solidariedade à família enlutada.
 
Depois de minha habitual oração junto ao caixão, em razão de eu não ser diretamente conhecido dos presentes, deixei meu pai conversando discretamente com seus amigos dentro da reduzida sala de velório da igreja de São Judas Tadeu. Postei-me do lado de fora, encostado à parede, com os olhos entre perdidos e atentos ao intenso movimento de veículos, motocicletas, pedestres e ônibus da rua Francisco Marques.
 
Não tardou para que eu testemunhasse uma cena insólita. 
 
Um carro popular, muito novo, estacionou bem defronte ao velório, fazendo uso de uma área exclusivamente destinada a portadores de necessidades especiais – conforme sinalizações aérea e de solo. Desceu a motorista, uma jovem absolutamente saudável (e muito bonita, diga-se), trajando camiseta e um short minúsculo que mostrava abundantemente o vigor de suas pernas. Abriu a porta traseira do carro e, após desvencilhar da cadeirinha um bebê fofinho, colocou-o no colo e atravessou a rua, rumo à casa lotérica que fica do lado oposto.
 
Examinando com mais atenção, observei que havia mais duas pessoas dentro do carro. Uma senhora no banco dianteiro de passageiro e um indivíduo, que me pareceu mais jovem, no banco de trás, bem ao lado da cadeirinha.
 
Como era semana de pagamento, a casa lotérica transbordava de pessoas, a ponto de a fila se estender por toda a extensão da farmácia que fica ao lado, obstruindo as portas e obrigando os clientes da farmácia a pedirem licença para entrarem e para saírem. Na fila, pessoas de todas as idades, inclusive idosos que poderiam certamente desfrutar do caixa preferencial.
 
Com a criança nos braços a jovem e saudável senhorita fez exatamente o que o querido leitor deve estar deduzindo nesse momento: rapidinho entrou na casa lotérica e, ela sim, fez uso a prerrogativa da lei, usou o atendimento preferencial. E foi rapidinho que voltou ao carro, acomodou novamente a criança na cadeirinha e partiu, deixando livre a vaga que não lhe pertencia por direito, posto que ela não é deficiente.
 
Os questionamentos mais óbvios poderiam ser colocados aqui: porque a jovem ocupou uma vaga tão exclusiva e tão fundamental? Porque tirar a criança da cadeirinha onde estava confortavelmente acomodada – onde ficaria devidamente acompanhada pelos demais passageiros do carro?
 
Contudo, ao invés de perguntas previsíveis, prefiro uma reflexão um tanto mais profunda: como é que nós, cidadão brasileiros, nos arvoramos a exigir de nossos governantes que “andem na linha” e preservem a retidão na vida pública, se não perdemos a menor oportunidade de nos beneficiarmos indevidamente de direitos alheios?
 
A sociedade do “jeitinho”, de motoristas que ignoram sistematicamente as mais elementares leis de trânsito, o povo que não pensa duas vezes ante a possibilidade de furar uma fila, está mesmo maduro para eleger os governantes éticos que reivindica? Os eleitores que votam em um vereador esperando que ele lhes quebre pequenos “galhos“, que não hesitam em contrabandear um sinal de TV via satélite ou fazer um “gato” pra roubar energia elétrica, estarão moralmente aptos a fiscalizar e exigir de seus representantes legislativos e  executivos lisura na administração dos recursos oriundos dos impostos de todos?
 
Ademais, como sabemos, políticos não caem do céu. São homens e mulheres tirados do meio do povo para governar o povo. Presumir que eles adquiriram deformidades éticas depois de terem ingressado na vida pública seria, no mínimo, inocência. É muito mais fácil enxergar que as ferramentas do poder apenas potencializaram tais deformidades. Ou seja, ofereceram-lhes as oportunidades para tornares gigantescos seus desvios – e as consequências destes.
 
Daí concluímos que está cheia de verdade a afirmação de que “cada povo tem o governo que merece”.
 
 
Ronaldo Silva, vendedor, universitário

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