O pavão com o rei na barriga

Por: Cristiane Ávila Paulo

Sempre a mesma história. O pavãozinho com o rei na barriga chegava, e sua inabalável alegria para os outros animais alardeava. Sorriso aberto, aos quatro ventos bradava: “A festa é minha, esse lugar é meu! Foi você quem construiu, mas não nos damos bem? Problema seu!”
 
Felicidade desconcertante - de tudo entendia, era exemplo de amor e harmonia, o ambiente dominava, os demais convidados ofuscava. Em cada encontro, o grupo se transformava em plateia daquela ave bem aparentada, e ai de quem ousasse dividir com ela o mesmo espaço ou os mesmos afetos. Alguns bichos, fascinados pelas belas plumas, viam-se obrigados a garantir que a espécie rara não fosse incomodada no hall da fama.
 
Mas nada agradava o dono da longa e colorida cauda – tudo era chinfrim demais, sempre queriam puxar seu tapete vermelho, nada atingia o seu alto patamar de exigência, fazia questão de provocar os administradores do zoológico. Tragédia anunciada: passadas algumas horas de animação, seu ensaiado deleite se transformava em angústia e reclamação. Festividade para todos encerrada, só restava a energia pesada.
 
Então o buchicho começou: “Como pode? Tão perfeito, sempre feliz! Será que a majestade dentro dele não é tão rica assim como se diz?”, perguntava a bicharada, cansada de tanta decepção com as tentativas frustradas de festejar com a insaciável ave.
 
Os animaizinhos fizeram então uma reunião, e decidiram encerrar de vez essa questão. Chamaram o doutor lagarto, e ficaram boquiabertos com o resultado do ultrassom: o pavão, coitado, não tinha o imperador em sua pança! Lá dentro morava um vampirinho mendigo, tão triste, e tudo o que ele fazia era implorar por atenção e rogar por migalhas da alegria alheia. Pobre chupim, de tão solitário que estava, queria companhia na sua amargura e acabava fazendo o pavão colocar o peso da sua infelicidade nas costas não somente dos seres que  repugnava, mas também daqueles que mais gostava.
 
Após esse episódio, os amigos do zoo perceberam que quem está realizado não precisa de megafone e que a insistência no desdém vem sempre daqueles que querem colocar os outros na sua péssima vibração. Finalmente, viram que era inviável continuar se sacrificando para atender às ávidas súplicas do pavãozinho que, deslumbrado, ainda aguarda o convite para a próxima festa... Mal sabe ele que a bicharada não cogita uma confraternização tão cedo.
 
 
Cristiane Ávila Paulo, advogada
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras