Desarranjo

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Terminei a leitura – leitura à lupa, cheia de tropeços, plena de pausas – do romance Contagem Regressiva, de Vanessa Maranha. As interrupções muitas, a concentração pontilhada desaconselham-me comentários críticos. A amizade à autora e minha temeridade, no entanto, impõem-me estes palpites.
 
Examinado do ponto de vista do conteúdo, vejo este trabalho como pequeno painel – soma de dezenas e dezenas de fotografias – que resulta em recorte de paisagem ampla: a criatura humana. Assim, o painel composto me lembra fotografia em preto e branco do ser humano e suas relações.
 
Esse recorte, esse pedaço foi colhido despojado de cores, sem quaisquer vislumbres da luz presente nos românticos, mesmo quando estes almejam alguma proximidade com o real. Contagem Regressiva é puro retrato em preto e branco e sem retoques.
 
A meu ver, para sua construção, Vanessa Maranha se vale dos muitos instrumentos com que aprendeu a lidar na sua profissão. Acresce a eles as ferramentas encontradas amiúde nos naturalistas, além de outras tão presentes no atual cruísmo. Então, com o conjunto, fotografa ações e pessoas que, cotidianamente, cruzam seu caminho de pessoa e de escritora em ruas, calçadas e consultórios.
 
Assim, com microscópio singular, observa e analisa uma a uma as fotos selecionadas. Corta e recorta-as, tal qual um cientista rasga plantas e seres para examinar suas entranhas – indiferente, quase insensível - preocupado unicamente com o resultado de suas pesquisas e de seus estudos.
 
Possivelmente a analista tenha partido do pressuposto de que o conjunto da vida humana consista na soma de mil desarranjos que, olhados de longe, dão a falsa idéia de um todo harmônico. A mim, é tal pressuposto que justifica e explica a a permanente quebra da “harmonia”em todas as situações e em todos os aspectos da forma utilizada na composição do romance.
 
Alguns leitores poderão acreditar que o incômodo está apenas na inversão das partes em que se divide a obra. Há mais. Parece-me que todo o livro é um desarranjo consciente e calculado, espelho que procura ser da vida. 
 
O narrador em terceira pessoa é bruscamente substituído pelo narrador onisciente,  ou pelo narrador em primeira pessoa. Quando menos se espera, eis que chovem períodos quebrados. Além disso, a linguagem ora acompanha o nível cultural da personagem, ora ignora-o tranquilamente. Narrativas são entremeadas a outras, o coloquial e o literário se alternam... E tudo isso me parece atitude consciente da escritora para levantar o painel almejado: o desarranjo que caracteriza a apenas aparente  harmonia que caracteriza o desenvolver do homem.
 
O leitor poderá identificar ainda que a obra dialoga muito proximamente com  Vinicius de Morais, com José Mauro de Vasconcelos,  com Guimarães Rosa...
 
Tudo isso faz de Contagem Regressiva um trabalho muito sério, uma tentativa respeitável de compreensão da vida e da dor.
 
É uma narrativa que machuca, que fere minha visão quase romântica, quase quixotesca do mundo, do homem e da vida. No entanto, respeito demais o seu mérito.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

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