O homem e a mulher

Por: José Borges da Silva

Era um domingo ensolarado de junho e, havendo se recuperado de uma pneumonia ele resolveu ir com ela à feira livre, armada a duas quadras da casa deles. Iam caminhando devagar, ela a um passo à frente, puxando o carrinho. Era poucos anos mais nova do que ele, mas gozava de melhor saúde.
 
- Está se sentindo bem, meu velho? 
 
- Sim, sim… Você anda um pouco depressa…
 
Mal ouviu o reclamo ela desacelerou o passo. Estava feliz. Iam completar bodas de ouro na próxima primavera e chegou a temer que ele se fosse antes.
 
- Você se lembra do que aconteceu no mês de junho?  Provocou ela, com olhar insinuante.
 
- Em junho? De que ano? Já se passaram tantos…
 
- De mil novecentos e sessenta e dois!
 
- Ah! O Brasil ganhou a Copa do Mundo na Suíça, ouvi os jogos pelo rádio… Eu…
 
- Copa do mundo! Ah, meu velho, você ficou bom mesmo… Foi em junho de sessenta e dois que nos conhecemos. Lembra?
 
- Ah, é claro. Claro que me lembro. Foi na festa de São João.
 
E de 1964, você não se esqueceu, não é?
 
- Ora, desse ano eu me lembro é da revolução, do golpe militar, em que depuseram o Jango… E… E... Ah, a gente se casou, não foi?
 
Ela se achegou e, delicadamente enganchou a mão direita ao braço esquerdo dele e foram, em silêncio, escolher tomates dentre uns graúdos e muito vermelhos que estavam expostos na primeira banca do lado em que chegavam à feira.
 
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 

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