Salvação?

Por: Maria Luiza Salomão

Kafka, no texto O Silêncio das Sereias, escreve sobre um  fragmento da Odisseia, de Homero, no episódio em que Ulisses, para escapar à tentação das sereias, coloca cera no ouvido dos remadores, e se faz amarrar fortemente ao mastro, para ouvi-las e não sucumbir ao seu canto.
 
Kafka, diz, no primeiro parágrafo: comprovação de que mesmo meios insuficientes – infantis mesmo – podem servir à salvação. 
 
Stéphane Mosès, na Cult, n. 194, de setembro, analisa o texto de Kafka (de uma só página) que é recheado de ambiguidade: parece - a Kafka -  imensamente ingênuo o uso de artifícios de Ulisses, ou imensamente astuto. Segundo Homero, Ulisses era solerte, astuto em grau superior a todos os homens, como quando responde ao gigante Polifemo dizendo se chamar “Ninguém”; ou quando duvida da aparição da própria deusa Atená, quando ela lhe aparece metamorfoseada de Mentor.  
 
Reflexão rica. Kafka é um escritor do turbulento século XX: de mudanças impressionantes nos costumes, de transformação radical de modo de vida, de mundos sobreviventes a duas grandes, e terríveis, Guerras Mundiais, palco de conflitos nascentes, inconciliáveis, no Oriente Médio, e a que, no século XXI, assistimos com temor redobrado. 
 
Quais meios servem à salvação da espécie humana?  Salvação é termo reservado aos religiosos: há que ter fé na natureza humana.  
 
Ao lermos Kafka, não conseguimos identificar a tal fé, e nenhum escritor contemporâneo escapa ao ceticismo quanto aos valores de mundos perdidos nos tempos.  Criamos, insuficientemente, novas mitologias - guerras entre mundos, Guerra nas Estrelas, a Terra destruída, ou, como na Inteligência Artificial, o filme, os robôs sobrevivem aos humanos, os quais não sobrevivem enquanto espécie. 
 
Kafka escreve esse texto, que o amigo Brod deu o significativo título de O Silêncio das Sereias, em 1917. Kafka era judeu, sofreu percepções singulares, que se imortalizaram e se tornaram universais, através de sua genial escrita. As obras de Kafka foram publicadas (em sua maioria) pelo amigo Max Brod, que lhe desobedeceu ao não destruir seus manuscritos, conforme seu testamento. 
 
Quanto à salvação: Kafka deixa em suspenso, ambiguamente, seu estilo, que Ulisses teria percebido que as sereias fizeram um grande silêncio, ou  não percebeu o silêncio das sereias, a exercerem um poder maior, silencioso, sobre a sua suposta astúcia: “só o silêncio (das sereias) poderia com tal opositor”. Ulisses “não lhes ouviu o silêncio (...)”. Ele sobreviveria ao canto das sereias, se elas cantassem deveras? Os remadores deixariam de escutá-las com a reles cera no ouvido? 
 
 Segundo Kafka, Ulisses era astuto a ponto de não permitir que nem os deuses soubessem do seu íntimo. Seria ingênuo ou percebera que as sereias permaneciam silentes, e usara a simulação como escudo para os deuses e para as sereias?  
 
Ingenuidade excessiva: arrogância. Simulação excessiva: arrogância. Kafka, cuja vida não foi nada fácil, nos deixa, então, com a questão, entre irônica e paradoxal: simular ou ser imensamente ingênuo: qual o jeito, insuficiente ou infantil, de nos salvar dos perigos dessa vida?
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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