Memória paterna

Por: Eny Miranda

Papai poderia ter sido um bom repentista. Tinha uma facilidade incrível com ritmos e rimas. Às vezes, em casa, resolvia falar em versos, contando histórias ou narrando fatos. Eram temas leves, para que ríssemos com eles. Mas nas reuniões com amigos, preferia declamar poemas de autores consagrados. Havia um que sempre me pareceu o favorito de meu pai, já que, a qualquer tempo, basta a lembrança do título para eu ouvir sua voz clara e firme, rever sua expressão apaixonada, reproduzindo cada verso: “Certo conde normando, assolador e hirsuto,/ Senhor tradicional d’uma cidade inglesa,/ Querendo um prato d’oiro a mais na sua mesa/ Lançara sobre o povo um pesado tributo.” 
 
O poema Lady Godiva, do escritor e tradutor português Júlio Dantas - também político, diplomata e médico -, remonta ao século XI, à história da lendária esposa do Duque da Mércia, e seu gesto de compaixão pelo povo subjugado. Houve um tempo em que pretendi decorá-lo, mas minha memória nunca foi privilegiada, como a de meu pai. Por isso, apenas vagos fragmentos do poema, às vezes, me visitavam.
 
Nos últimos dias, procurando na internet um site de literatura portuguesa, eis que reencontro casualmente o texto, ainda na ortografia dos primórdios do século XX. Foi como se a lufada de um verbo antigo me levasse a visitar o velho burgo, e ventos menos remotos me trouxessem de volta, no espaço e no tempo, à casa de meus pais, a nossa casa, onde tantas vezes Júlio Dantas esteve conosco, sensível, no entusiasmo de papai: “Caía a tarde. O sol quebrava a neve fria./ Ao sopé da montanha, o burgo adormecia/ Como um cachorro aos pés d’uma arca tumular.”
 
Assim, revisitei a sala, onde rostos, agora gravados na memória em frágil sépia, reapareceram em luz e cores. Os nossos amigos estavam ali, na expressão cinética da pulsante matéria viva. Ruídos de fundo, familiares, vindos de todas as partes, chegavam até nós, na sala - desde o mar, ao longe, passando pelo jardim; desde a cozinha, onde um café com bolo e biscoitinhos era preparado, exalando os odores cálidos da amizade. E a voz de meu pai se impunha, clara e firme (era muito bela a voz de meu pai): “Dentro da fortaleza, entretanto, rodeado/ De dalmáticas d’oiro e capelos vermelhos,/ O conde rejurava à fé dos Evangelhos/ Que o burgo pagaria o tributo lançado.” 
 
Observando os presentes, descobri olhos de muitos tons e diferentes brilhos: uns distantes, talvez na Europa Medieval, ao lado do povo, solidários, ou no castelo, magnetizados pela coragem e a beleza lendárias de uma jovem mulher; outros, vivendo aquele momento em casa, na sala, bebendo aquelas palavras, líquidas e aéreas, com suas nuanças, com sua força: “Tudo o aplaudiu. Somente, alva e loira, a seu lado/ Se ergueu lady Godiva; e prostrada de joelhos,/ Defendendo condoída as crianças e os velhos,/ Gemeu: ‘Senhor! O povo é já tão desgraçado! // Por que o não libertais d’esse tremendo imposto?”
 
Letras vindas de longe, sinais viajantes, impalpáveis, alimentados por ondas cibernéticas, deslizando em e através de espaços inimagináveis, transportam sonhos e verdades, desafiando, desfazendo velhos conceitos, velhas cronologias. Vidas vindas de longe, caminhando caminhos inimagináveis, volvem e revolvem histórias e afetos, animando, revivendo... demonstrando, absolutas, a inexistência do tempo.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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