Leia o conto 'O sonho que não fomos' do livro 'Quando não somos mais'

Por: Vanessa Maranha

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Conto do livro Quando não somos mais, vencedor do II Prêmio UFES de literatura 2013-2014, a ser lançado no dia 23/09, às 11h, na II Feira do Livro de Franca
 
 
Era alto. Não tanto, mas o suficiente para estar dois palmos acima de mim.
 
Cachos claros e perfeitos emolduravam-lhe o rosto com olhos de aparentemente não ver, de um verde baço, como se fina película o revestisse em proteção; nariz aquilino, traços finos, a boca levemente dura, alguma mágoa em seu contorno.
 
Perturbador, ele entrou na sala com o atrevimento do sol do meio-dia, acenando-me discreta reverência para logo se encaminhar para o seu não-lugar-ainda no curso já com uma semana de andamento. Reparei no blazer de veludo oliva fazendo composição com o olhar, ombros de uma dignidade toda reta, arrogância, afinal?
 
Íamos pela disciplina mais temida da área de Exatas, Cálculo Integral, eu muito jubilosa à frente, o poder de decidir, entre o geral, quem se peneiraria à intelligentsia, donde portanto advinham bajulações pastosas, em especial dos menos capazes.
 
Mas, adianto, já andava um tanto cansada de todo o aparato professoral, fugidia da visão de mim mesma – uma fraude? – que se você não se cuida, a coisa deságua nisso mesmo e eu, definitivamente, não havia me cuidado nesse sentido, durante todos os anos de professora universitária que, de tão entranhados em mim, eram a minha própria e talvez única definição de vida.
 
O rapaz sentado numa carteira de canto bem próxima à porta, a experiência me fazia saber que se tratava de disfarçada estratégia de fuga – ah! Então medo ele tem! Mesmo assim, me observava os movimentos com olhos esfíngicos que nada diziam, vez ou outra abaixava o rosto para anotar qualquer coisa num pequeno bloco, rápidas palavras, mais provavelmente números e suas correlações, afinal, somente o que eu sabia tratar. 
 
Quando de novo erguia o rosto para me atingir com tais fachos verdes, eu quase me encolhia, um bocado sem jeito e descobria que o moço alto, tão jovem e sisudo, o corpo de vinte, a alma beirando os oitenta, pós-graduação, me deixava desconcertada. Justo a mim, que seguia pela aposentadoria, e ali somente estava pela aposentadoria, aliás. 
 
Poderia de longe o rapaz enxergar a minha pele cansada? Ouvia-me a gravidade metálica da voz já um tanto desgastada pelo tempo? Decifrava nas minhas palavras denúncia, algum clamor ou lamento íntimo, embora essas, nas aulas eu pouco dissesse, senão para enumerar exatidões, fórmulas, sinais? 
 
Quanto mais eu me encolhia em postura rígida mais no reverso me declarava, austeridade que era contrapeso para então eu não tombar, mais perscrutador e indivisável se fazia aquele olhar. Que, ora pois, era ainda um moleque mal saído dos cueiros, vontade de lhe meter o dedo na cara pela audácia em me desfazer ao mero olhar, incitar a desconstrução daquilo que tão diligentemente eu sedimentara ao longo de tanto tempo.
 
Corri os olhos pela lista de chamada e pedi que o jovem se apresentasse, afinal, era quem chegava com atraso – havia, eu sabia, reação nessa minha introdução.
 
Ele muito calmamente olhou em redor e disse o meu nome é Zoroastro – a pressão do riso reprimido de dentro para fora me abateu ferozmente, mas, não convinha vazão à doutora que sou e, ademais, Zoroastro é nome de grandeza intelectual e no umbigo do racionalismo estávamos todos nós, ali. De todo modo, algum ímpeto de vingança o rapaz me provocava e houve, sim, incerto e íntimo regozijo quando flagrei troca de olhares divertidos entre os outros alunos: não perdoariam facilmente um neófito tardio, ainda por cima misterioso, sobretudo, belo. Belíssimo. A perfeição encarnada.
 
Por que está no curso, Zoroastro?, eu quis saber.
 
Ele respirou fundo e pausadamente me alvejou:
 
Por você.
 
Perdão?, eu desentendi.
 
O moço respirou fundo, balançou a cabeça:
 
Digo, pela sua disciplina, a mais disputada, por sua excelência de ensino.
 
É da escória dos bajuladores, eu começava a delinear. A minha testa, as têmporas pulsavam numa dorzinha que vinha num crescendo.
 
E de que graduação vem você?
 
Da Engenharia da Computação.
 
Pois muito bem, espero então poder ajudá-lo com o que temos aqui para oferecer.
 
Ele se ajeitou na cadeira e enigmático o verde de novo me penetrou sem pedir licença
 
Tenho certeza que sim.
 
Era sucinto nas frases. A voz grave, macia, baixa tocava reentrâncias empoeiradas de tão esquecidas em mim. Bem poderia ser do tipo que ama os animais. Ou aquele capaz de, à contrariedade, confiante na mudez dos bichos, se aplicar à iniquidade – pauladas nesses mesmos bichinhos amados, quem sabe? Não se saberia. O olhar monolítico e contraditório pouquíssimo falava.
 
Mas bastou para eu à noitinha chegar mais viva no silêncio escuro da minha casa ordenada, comer umas frutas, castanhas e queijos, enxugar meia garrafa de vinho e ter com quem sonhar. Começar de novo algo que em mim acreditava já extinto.
 
 
Vanessa Maranha, Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida, Cadernos Vermelhos, 807 dias  e contagem regressiva

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