Fazedor de ontens

Por: Heloísa Bittar Gimenes

O tempo é um espaço recheado de afazeres. O acúmulo de afazeres é o que  chamamos de história. Várias histórias condensadas numa pessoa só é o que nomeamos como vida.
 
O tempo tem a função de marcar um antes e um depois.  É sublime porque aponta para finitude das coisas; passa para apressar as histórias. Suas marcas são indeléveis.
 
Por si só, o tempo não sabe de nada; é acéfalo. Porém, funciona obsessivamente pontual, é imbatível.
 
Ninguém consegue segurá-lo, nem mesmo a morte. Sim, pois ele passa independentemente de nosso querer, parece funcionar com forças ocultas.
 
Com ele escrevemos o ontem, o hoje e o amanhã. Às vezes mostra-se cruel, outras gentil. Ora rasga e tritura, ora é o bálsamo para as feridas.
 
O tempo para os amantes é pequeno; para o sofredor, imenso; para o melancólico, tedioso. Para a criança, imperceptível, para o jovem é eterno, para o adulto, produtivo e para o velho ele é o instante. 
 
Na realidade, somos nós que nos utilizamos do tempo e não ao contrário.
 
Há quem o drible, poucos numa população extensa, mas há! São pessoas iluminadas e desapegadas que conseguem transcender os parasitas da terra e cultuar a  essência da vida. Para estes, o tempo é tão somente um detalhe.
 
Mas também há os que brigam com ele; para estes, o espelho é um tormento. 
 
De qualquer maneira, o tempo é o mesmo para todos nós. Por isso acaba sendo justo. A diferença fica por conta das escolhas que fizemos, da família onde nascemos, da sorte ou azar pelos quais fomos acometidos, das situações que enfrentamos e dos personagens inseridos e escolhidos para a história.
 
Enfim, com tudo isso e provavelmente muito mais,  o tempo acaba sendo: um fazedor de ontens.
 
 
Heloísa Bittar Gimenes, psicóloga
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras