Perdas e ganhos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Houve tempo em que eu achava a vida extremamente injusta às vezes. Era um tempo em que minhas observações se baseavam somente na  da razão, ferramenta nem sempre suficiente. Tal meio e outros de igual nível levavam-me à conclusão de que algumas pessoas eram privilegiadas, e outras, quase esquecidas por Deus.
 
Via algumas criaturas nascerem em meio abastado, usufruindo dos favores que o mundo material concede. Tinham acesso ao conforto, à saúde, ao estudo, e, consequentemente, à possibilidade de desenvolvimento.
 
Via, por outro lado, seres humanos nascendo em casebres periféricos, vestindo trapos que não amenizavam o frio. Distantes das conquistas materiais, tudo lhes era empecilho ao crescimento.
 
A vida era extremamente injusta, pensava então.
 
Hoje, meus instrumentos de observação, de análise, de cálculo são outros. As conclusões, obviamente, são outras.
 
Cerro os olhos físicos e observo minha irmã Shirley.
 
Nasceu em rancho, à beira do Córrego das Pedras, longe da civilização, longe de hospital, longe de templo a que só foi levada após muitos e graves riscos de morrer pagã. Cresceu quase selvagemente, em cima de carro de boi, desviando-se de cobras nos trilhos, galopando em pelo, por sítios perigosos.
 
Na cidade, sua infância esbarrou em trabalhos domésticos em casas alheias. Na juventude, experimentou atividades de comerciária, de telefonista, de secretária de escola. Casou-se muito cedo, pariu três filhos homens. No derradeiro parto, por erro sabe 
 
Deus de quem, perdeu o movimento dos membros inferiores.
 
Prisioneira de cadeira de rodas, concluiu os estudos de nível médio, empreendeu viagens diárias, percorrendo estrada entre Orlândia e Franca, frequentou o curso de Direito. Formada, viajou por escritórios, por corredores de fóruns, por salas de promotores e magistrados. Com  seu trabalho e apesar de assíduas visitas a hospitais, vem sustentando a família.
 
Agora, depois de mais de quarenta anos, sua cadeira de rodas fica mais difícil de dirigir: ela perde, de forma trágica, o seu filho do meio.
 
Noutro tempo, eu julgaria a vida tremendamente injusta com a mana Shirley.
 
Não é. Há ganhos e perdas.
 
Desde a infância a mana Shirley revelou os ganhos: ânsia de liberdade, ânsia de saber,  arrojo. Desde a juventude revelou coragem e disposição e foi com elas que a menina influenciou não só seus irmãos, mas também os seus pais, produtos de uma geração estribada no conformismo, despretensiosa, quase indolente.  Adulta, assumiu as rédeas de sua família, influenciando decisivamente na escolha de empregos para seus membros, na localização de residência. Formada, especializou-se na área das aposentadorias, ajudando centenas de desvalidos.
 
Diante da perda de movimento das pernas, no passado; diante da perda trágica do filho, agora, permaneceu e permanece altiva, seu espírito projetando sombra exemplar sobre os familiares, sobre os amigos.
 
Shirley se comporta como testemunho de que Deus não comete injustiças. Há sempre perdas e ganhos.
 
Shirley perdeu muito. 
 
Ganhou muito.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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